Exposição "As impurezas extraordinárias de Miriam Inez da Silva"

Galeria Almeida e Dale - Rua Caconde, 152 - São Paulo

Exposição "As impurezas extraordinárias de Miriam Inez da Silva"

Durante os 40 anos em que desenvolveu sua prática artística, Miriam Inez da Silva construiu um universo encantado e impuro, marcado pela amálgama entre o banal e o extraordinário. Reunindo mais de 100 pinturas e gravuras criadas pela artista entre 1962 e 1996 além de importante documentação nunca antes exibida, a presente exposição propõe uma alternativa à maneira como sua produção tem sido convencionalmente considerada por agentes e instituições de arte no Brasil.

A partir do início da década de 1970, grande parte dos críticos de arte no país passou a classificá-la como artista "primitiva”, “naïf” e "popular”, tratando seu trabalho como algo gerado de maneira intuitiva, ingênua e tradicional. A inclusão (ou exclusão) de Miriam nestas categorias fez de sua obra objeto de um olhar atrofiado, informado por colonialidade e elitismo, incapaz de reconhecer as complexidades que constituem sua prática. Onde estes críticos vêm apontando intuição, inocência, pureza e tradição, nesta exposição ressaltamos intenção, malícia, impureza e transgressão.

Em sua vida e em sua obra, Miriam desafiava constantemente as normas, convenções e classificações. As maquiagens, roupas e comportamentos incomuns faziam parte de sua busca por construir formas de viver próprias e livres. Em Agosto de 1976, por exemplo, na ocasião da inauguração do Museu Carmen Miranda no Rio de Janeiro, Miriam decidiu comparecer à abertura solene trajando vestes inspiradas na cantora que havia falecido em 1955. Em sua casa-ateliê no bairro do Flamengo, Miriam realizava festas temáticas em que os convidados deviam chegar vestindo-se de maneira “excêntrica” - ocasião aproveitada sobretudo por seus muitos amigos homens gays que, naquela época, chamavam atenção da sociedade conservadora carioca por usarem cotidianamente cabelos longos e maquiagem.

O caminho de liberdade de Miriam passava também pela autonomia de sua espiritualidade. Tendo nascido e crescido numa cidade que se formou em torno de relatos de milagres, o conjunto de crenças da artista misturava com naturalidade leituras de tarot, anjos da guarda e extraterrestres. Miriam tinha devoção especial por Santa Bárbara, motivo de uma pintura - presente nesta exposição - que esteve constantemente na parede de sua casa, única obra que jamais foi posta à venda pela artista.

Miriam foi uma mulher irreverente e transgressora, que, digerindo elementos da cultura vernacular brasileira presentes em sua intimidade, elaborou uma obra que reverbera as dinâmicas do processos de modernização do Brasil durante o século XX. O assunto maior do trabalho de Miriam está representado em suas pinturas como fundo branco. Chamado de “vida” pela artista, este é o espaço de potência da dimensão social, os horizontes da plasticidade da cultura, onde as relações reproduzem e desafiam tradições. Produzindo tensões complexas sobre estes fundos monocromáticos, Miriam investiga as múltiplas forças que nos mantém unidos como sociedade, comunidades, famílias, amigos, casais. Ali, estão os prazeres compartilhados, o amor, o desejo, a celebração, o pertencimento, a alegria, a fantasia, a magia, a fé, e também a opressão, a violência, a segregação, as disputas, os conflitos. Se os trabalhos de Miriam são capazes de atrair rapidamente o olhar por sua aparente doçura e jocosidade, é preciso duvidar dessas primeiras impressões e investigar os detalhes e minúcias ali oferecidos. A direção de um olhar, a proporção entre as figuras, uma coloração inesperada: estas pequenas transgressões das formas convencionais de representação tem enorme pregnância simbólica e nos evidenciam um humor malicioso, astuto, crítico e inconformado, muito característico da artista.

A relação de Miriam com a arte começou ajudando sua mãe a pintar paisagens e naturezas-mortas e observando as pinturas votivas na Sala dos Milagres da Igreja Matriz de Trindade. Miriam teria também uma extensa educação formal como artista, com início em Goiânia, na Escola de Belas Artes da Universidade de Goiás, estudando pintura entre 1955 e 1958, e dando continuidade no estado da Guanabara (atual cidade do Rio de Janeiro), para onde a artista se mudou em 1961. Em janeiro de 1962, Miriam cursou gravura no Instituto de Belas Artes e aprofundou seus experimentos com xilografia no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, tendo Ivan Serpa como professor. Poucos meses depois, o crítico de arte Flávio de Aquino escreveu sobre sua participação na exposição de fim de ano no MAM Rio: “[Miriam] Já não é uma aluna, é um temperamento original extremamente rico, a mais séria revelação artística dêste ano que finda.”

Em 1963 e 1967, com suas xilogravuras oníricas e sombrias, Miriam participaria da 7a e da 9a Bienal de São Paulo. Em 1964 e 1966, obras da artista estariam presentes nas duas primeiras edições da Jovem Gravura Nacional, organizada por Walter Zanini no Museu de Arte Contemporânea de São Paulo. Em 1966 e 1968, ela participaria também das duas edições da Bienal da Bahia; e em 1969, ela teria obras expostas na Bienal de Gravura de Santiago do Chile. Durante os anos 1970, a artista participou de inúmeras exposições no Brasil e também em França, Inglaterra, Canadá, Itália, Marrocos e Iugoslávia. Em 1981, o poeta e crítico de arte Theon Spanudis, um dos signatários do manifesto neoconcreto e um dos maiores pensadores e colecionadores de Alfredo Volpi e Eleonore Koch, escreveu que “Perto de José Antônio da Silva, ela é, em minha opinião, a mais importante, criativa e genial primitiva brasileira”.

Se consideramos o ambiente artístico ao qual a artista esteve exposta durante todos esses anos e a habilidade de representação realista demonstrada pelos desenhos em seus cadernos de adolescente, temos de entender suas decisões (de material, linguagem, poética, assuntos...) como escolhas e não limitações. O que pode significar esta opção por desenvolver seu trabalho a partir da herança imagética das pinturas votivas, no território dos milagres? O que nos diz a opção da artista por pintar sobre madeiras - muitas vezes fragmentos descartados ou trazidos pelo mar? Quais as relações de ruptura e continuidade entre as gravuras dos anos 1960 e as pinturas que Miriam a partir da década de 1970? E sobre a representação de animais, monstros, plantas e astros celestes com feições humanas? E sobre estarem tantos deles maquiados? E a recorrência de figuras de qualidades indefiníveis, híbridas, impuras, que confundem suas definições como masculinas ou femininas, adultas ou crianças, animais ou humanos? O que Lady Godiva faz cavalgando nua com o avô de Miriam em Trindade? O que nos dizem esses anjos que ajudam Maria na missão do cuidado materno? E esse sol - esses sóis? O que testemunham? O que fazem estes cantos superiores abaulados? O que fazem essas molduras pintadas pela artista? Por quais milagres (e a que divindade) damos graças com essas obras?

Estas são apenas algumas das perguntas com as quais começamos a nos envolver com essa exposição. Essa pesquisa deve muito ao cuidado com que a Sofia Cerqueira, filha de Miriam, guardou toda a extensa documentação reunida pela própria artista entre os anos 1950 e 1990. Agradecemos à Sofia por nos ter aberto recentemente, pela primeira vez, todo este arquivo que contém desde recortes de jornal da antiga Iugoslávia até cadernos de infância da artista, além de dezenas de pinturas, gravuras e matrizes xilográficas. As numerosas entrevistas e o acesso a esse material permitem que esta exposição seja etapa crucial de uma pesquisa mais longa que busca construir conhecimento sobre a obra de Miriam nos aproximando do lhe movia intimamente como artista.

 

Serviço:
Galeria Almeida e Dale
Exposição "As impurezas extraordinárias de Miriam Inez da Silva"
Até 27/03
Rua Caconde, 152 - São Paulo

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