Exposição coletiva "O Peso das Ausências"
Exposição

Exposição coletiva "O Peso das Ausências"

Exposição

  • Nome: Exposição coletiva "O Peso das Ausências"
  • Abertura: 07 de agosto 2026
  • Visitação: até 22 de agosto 2026

Local

  • Local: Casagaleria
  • Evento Online: Não
  • Endereço: Rua Fradique Coutinho, 1216, Pinheiros – São Paulo, SP

O Peso das Ausências

 

 

Na presente exposição, O Peso das Ausências, o que está em questão não é apenas a ausência dos corpos, mas a ausência como potência de um devir. Em Gilles Deleuze, o problema não reside na presença dos corpos, mas na possibilidade de que "uma crença nos devolva o mundo e o corpo a partir do que significa sua ausência". A ausência, portanto, não representa um vazio; ela constitui um campo de forças onde memória, desejo e resistência continuam a operar.


Ao longo de sua filosofia, Deleuze oferece um sólido repertório conceitual para pensar o corpo em permanente transformação: o corpo-devir, o corpo sem órgãos, o corpo como intensidade e não como forma acabada. É precisamente nesse ponto que convergem o título da exposição, o manifesto e a produção artística das artistas. Para Deleuze, o ser não se constitui de maneira linear ou contínua; ao contrário, é atravessado por movimentos descontínuos, por linhas de fuga e espirais de transformação. O devir não é um estado, mas um processo incessante de deslocamento, no qual a identidade jamais se estabiliza.


Como afirmam Deleuze e Guattari:"As moças não pertencem a uma idade, a um sexo, a uma ordem ou a um reino: elas deslizam entre as ordens, entre as idades, entre os sexos; produzem N sexos moleculares na linha de fuga, em relação às máquinas duais que atravessam de fora a fora. A única maneira de sair dos dualismos é estar entre, passar entre, intermezzo."¹


É nesse fluxo dos devires que a ausência adquire espessura política e poética. A globalização, ao homogeneizar culturas e subjetividades, corrói as hecceidades — aquilo que torna singular um acontecimento, um corpo, uma existência. Destrói memórias, fragiliza pertencimentos e reduz a complexidade das experiências humanas a narrativas uniformizadas. O peso da ausência manifesta-se, assim, como apagamento histórico, social e afetivo, uma perda , um luto.


Essa reflexão encontra ressonância no pensamento de Judith Butler, para quem nem todas as vidas são igualmente reconhecidas como vidas dignas de luto. Existem corpos cuja perda sequer é socialmente percebida, porque foram historicamente desumanizados e excluídos dos regimes de reconhecimento. A ausência, portanto, não resulta apenas da morte física, mas de um longo processo de invisibilização política, simbólica e afetiva. O luto torna-se, nesse contexto, uma questão ética: reconhecer determinadas perdas significa reconhecer a humanidade daqueles que foram privados até mesmo do direito de serem lembrados.


Achille Mbembe amplia essa discussão ao formular o conceito de necropolítica, demonstrando como o poder contemporâneo administra quem pode viver e quem pode morrer. Nas periferias, entre as populações negras, nos corpos femininos submetidos à violência de gênero e nas subjetividades marginalizadas, a morte deixa de ser um acontecimento excepcional para tornar-se um dispositivo permanente de governo. A ausência, aqui, não é fruto do acaso; ela é produzida por estruturas políticas, econômicas e sociais que transformam determinados corpos em vidas descartáveis.


É justamente nesse ponto que a arte assume uma dimensão ética e política. Como pergunta Georges Didi-Huberman, como podem as imagens abordar aquilo que nos escapa? A imagem não se limita a representar o mundo; ela sobrevive aos acontecimentos, preservando vestígios daquilo que a história tentou apagar. Longe de tornar as ideias simplesmente visíveis, ela dirige-se precisamente ao que resiste à representação, ao que permanece como ruína, silêncio, memória e sobrevivência. Cada imagem guarda em si a potência de fazer reaparecer aquilo que parecia definitivamente perdido.


É nesse território que se inscrevem as pesquisas das artistas Nina Calazans, Isabela Cunha, Maria Júlia Silva Santos, Camilly Oliveira, Isabelle Braga dos Reis, Paula Fernanda Monte Santo e Anna Babiez. Suas obras não são  ilustrações de  violência nem pretendem documentar o sofrimento. Elas constroem experiências sensíveis capazes de revelar os mecanismos contemporâneos do apagamento histórico, da violência de gênero, da necropolítica, do racismo estrutural e da produção de subjetividades. Investigam a autoimagem, o corpo negro periférico, o tempo inscrito na carne, o biopoder, o feminicídio, as tranças como memória ancestral, a matéria como arquivo e o corpo como território onde permanecem inscritas marcas individuais e coletivas.


Segundo Lilia Moritz Schwarcz², diante do diagnóstico da "falência da nação", passamos a negociar com a teoria, transformando aquilo que antes parecia uma determinação histórica em possibilidades de reinvenção. São precisamente esses cenários que as artistas aqui reunidas nos apresentam: aproximações e afastamentos, encontros e desencontros, confrontos e reconciliações com a nossa própria realidade. As obras recusam respostas definitivas; preferem instaurar perguntas que desestabilizam o olhar e convocam o espectador a refletir sobre os processos de exclusão, violência e pertencimento que ainda estruturam a sociedade brasileira.


O Peso das Ausências não trata apenas daquilo que desapareceu. Mas do que insiste em permanecer. As ausências possuem peso porque continuam produzindo efeitos sobre o presente. A arte não restitui os corpos perdidos, mas restitui suas memórias, seus afetos e sua potência política. Faz da imagem um espaço de resistência contra o esquecimento e um gesto de restituição daquilo que a história insistiu em apagar.


Encerro este texto com as palavras de Darcy Ribeiro, cuja atualidade permanece incontornável:


"A mais terrível de nossas heranças é esta de levar sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista. Ela é que incandesce, ainda hoje, em tanta autoridade brasileira predisposta a torturar, seviciar e machucar os pobres que lhes caem às mãos. Ela, porém, provocando crescente indignação, nos dará forças, amanhã, para conter esses processos e criar aqui uma sociedade solidária."


Que esta exposição seja, portanto, um exercício de memória e de resistência. Um convite para olhar aquilo que foi silenciado, reconhecer os corpos tornados ausentes e compreender que a arte continua sendo um dos lugares privilegiados onde essas presenças insistem em sobreviver.


Loly Demercian

 

Referências

1. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia. v. 4. São Paulo: Editora 34, 2012, p. 73.

2. PEDROSA, Adriano; SCHWARCZ, Lilia Moritz (orgs.). Histórias Mestiças. Rio de Janeiro: Cobogó, 2015, p. 67.

3. BUTLER, Judith. Quadros de Guerra: quando a vida é passível de luto? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

4. MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018.

5. DIDI-HUBERMAN, Georges. Imagens Apesar de Tudo. São Paulo: Editora 34, 2020.

 


 

Serviço

EXPOSIÇÃO COLETIVA O PESO DAS AUSÊNCIAS

 

ABERTURA:

07.08.26 | SEXTA | 19H

 

PERÍODO DE VISITAÇÃO:

7 A 22 DE AGOSTO

 

CASAGALERIA

RUA FRADIQUE

COUTINHO,1216, PINHEIROS -

SÃO PAULO

 

APOIO:

 

BELAS ARTES

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