Agenda

Exposição "Amilcar de Castro - 100 anos"

Dan Galeria - Rua Estados Unidos, 1638 São paulo

Exposição "Amilcar de Castro - 100 anos"
IRR-42 DÉCADA DE 80 - Aço 200 x 200 x 120 cm

 

Amilcar de Castro - 100 anos

No centenário do nascimento de Amilcar de Castro (1920 - 2002) a Dan Galeria homenageia o artista que transformou o plano em espaço.

Em parceria com o Instituto Amilcar de Castro, a galeria apresenta obras inéditas com curadoria de Rodrigo de Castro, filho de Amilcar e representante do Instituto. Além de esculturas, pinturas em grandes dimensões e desenhos são apresentados na mostra. 

O público poderá visitar a exposição virtualmente por meio do novo Online Viewing Room da galeria, onde estão disponíveis fotos e vídeos das obras, e a cronologia do artista. Para acessar a exposição virtual, clique aqui.

A Dan Galeria está funcionando em horário especial, das 11h às 15h, e seguindo o protocolo de segurança ambiental e sanitária da pandemia, com número limitado de visitantes, uso obrigatório de máscara, disponibilização de álcool em gel e orientação de distanciamento mínimo de 1,5 metro entre clientes e colaboradores. 

 

Texto Curatorial:

Desde o ínício da década de 1990, artistas brasileiros integrantes do Grupo Neoconcreto passaram a receber atenção crescente de museus internacionais. Por enquanto, o interesse de instituições norte-americanas e europeias pela produção dos artistas que participaram do Neoconcretismo tem sido direcionado a um artista por vez, com grandes mostras individuais de Hélio Oiticica, Lygia Clark e Lygia Pape. Nesse contexto de valorização internacional da arte brasileira, o centenário de nascimento de Amilcar de Castro é um momento propício para estudos aprofundados sobre o escultor que transformou o plano em espaço.

 

Há um aspecto na produção do artista mineiro que corrobora a importância do Neoconcretismo, e da obra de Amilcar de Castro individualmente, para a história da arte ocidental: desde o Renascimento, o espaço tridimensional tem sido matematicamente achatado para o plano da pintura. A predominância da representação do espaço com a técnica da perspectiva linear e o impacto dessa forma simbólica na cultura estancou a relação entre mundo e sujeito no mesmo ponto – de fuga? Nós percebemos o espaço como nos foi dado a percebê-lo em representações bidimensionais nos últimos 600 anos. É nesse sentido que a escultura de Amilcar de Castro nos devolve o mundo: partindo do plano, ele finca no chão uma estrutura tridimensional que abre frestas para outras dimensões da experiência com o espaço que nos envolve.

 

Assim, não só Amilcar de Castro é figura central na “tomada de posição em face da arte não-figurativa ‘geométrica’ (…) e particularmente em face da arte concreta levada a uma perigosa exacerbação racionalista”, como declarado nas primeiras linhas do Manifesto Neoconcreto, como também é um artista que inverte o sentido do empobrecimento dimensional da nossa relação com o real. O que poderia ser mero anteparo, chapa de ferro fechando a possibilidade multi-dimensional da experiência com o real, é cortado e dobrado para ser túnel de passagem e expansão para outras dimensões.

 

O tempo, essa dimensão que está para além da tridimensionalidade, apresenta-se para quem interage com uma escultura de Amilcar de Castro na passagem da luz pelo corte e na mudança de iluminação causada pela dobra. A luz muda também à medida em que nos movimentamos em torno da escultura, enquanto percebemos o encontro entre a obra, o espaço e o tempo. No movimento de nossos corpos, verificamos a simplicidade efetiva dos dois gestos, corte e dobra, para a revelação de um mundo multi-dimensional e indiviso. Procurando uma solda entre partes, não a encontraremos. Como na proposta Merleu-pontiana, que inspirou Ferreira Gullar na escrita do manifesto Neoconcreto, a escultura de Amilcar de Castro é uma totalidade e incita a percepção total: ouvir o mundo pela visão do corte, acariciar com os olhos a textura da dobra. 

 

Essa totalidade sensorial se impõe na relação do observador com as telas de Amilcar de Castro. A audição faz parte da experiência de observar as pinturas de gesto simples e direto. Não há pincelada e sim varredura; as linhas parecem feitas com o som do atrito de uma trincha grossa no tecido da tela. As formas resultantes não descartam os ângulos, mas desafiam a racionalidade matemática em repetições espiraladas da borda para o centro. São pinturas que permitem a mancha, o caos, o gesto revelando um lado de lá do real, que a matematização do espaço evitou por tantos séculos levantando o anteparo da pintura como representação de uma aparência do mundo.

 

As esculturas com vidro, nesse sentido, são como prismas que fornecem um indício de que a percepção que temos do real depende do anteparo que nos separa ou nos integra a ele, da refração que a transparência do anteparo produz como mediação. Nessas obras transparentes, fica clara a proposta de Amilcar de Castro de que olhar para uma de suas esculturas inclui o olhar para o mundo. E um olhar do mundo, em nossa direção, passando pela obra. Vemos, somos vistos, percebemos, somos percebidos na relação com a obra neoconcreta.

 

É de se esperar que os importantes estudos já publicados no Brasil sobre o Neoconcretismo reverberem cada vez mais na cena internacional, colocando, assim, a virada brasileira rumo ao Construtivismo no cânone da história da arte ocidental. Amilcar de Castro é um artista fundamental para a compreensão da grandeza do projeto Neoconcreto.

 

Paula Braga, 2020.

Rua  Estados  Unidos, 1638    

T  55 (11)  3083 4600                 

 C  55 (11)  94004  7166

info@dangaleria.com.br