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Exposição "E essa tal liberdade, aonde é que anda, aonde é que vai?" de Sérgio Adriano H

Choque Cultural - Rua Comendador Miguel Calfat, 213, Itaim Bibi

Exposição  "E essa tal liberdade, aonde é que anda, aonde é que vai?" de Sérgio Adriano H

Sérgio Adriano H mostra sua vigorosa produção artística, formada por esculturas, fotografias, instalações e intervenções urbanas. A exposição virtual aqui proposta, traz imagens das obras, um texto curatorial de Juliana Crispe sobre o artista e um pequeno vídeo sobre a mais recente exposição do artista (inaugurada dias antes da crise do novo Corona vírus e, portanto, praticamente inédita).

Você pode conferir por esse link : https://www.choquecultural.com.br/pt/2020/06/15/choque-cultural-apresenta-exposicao-solo-de-sergio-adriano-h/

E essa tal liberdade, aonde é que anda, aonde é que vai?

 

Exposição de Sérgio Adriano H.

Curadoria: Baixo Ribeiro/Choque Cultural

Texto: Juliana Crispe

 

Os trabalhos de Sérgio Adriano H nos apontam reflexões que interrogam as narrativas, ditas legitimas, de identidades simbólicas, que a partir da construção da história dos negros no Brasil; seja pela escravidão ou pelo embranquecimento da figura dos negros intelectuais, produtores de cultura e história; o artista propõe desconstruções e novos significados para olharmos o tecido social, as segregações, os modos velados da história da negritude e o racismo como mecanismo estruturante da nossa cultura.

Sérgio nos faz pensar sobre nosso passado, e nosso presente e reinvidica um novo futuro em que, no seu maior sonho e idealização, está o desafio em transformar o significado das palavras PRETO (que tem a cor do piche, do carvão; negro) e NEGRO (cor escura que se assemelha à cor do carvão: o negro do asfalto) presentes em nossos dicionários em LUZ.

Se o homem da modernidade tinha sua identidade definida e localizada no mundo social e cultural, a contemporaneidade proclama mudanças estruturais, deslocando as classes, as identidades culturais, a sexualidade, as etnias, as raças e a nacionalidade, trazendo fragmentos e desestabilizando as pedras que se colocam em nossa história, movendo-as, retirando a solidez e propiciando fronteiras movediças, na multiplicidade dos corpos, na descentralização do sujeito que está a buscar outros modos de ver suas ânsias, seus antepassados, seus desejos e novas maneiras de narrar a sua história.

Estes têm sido os modos de operação e produção que, por sua arte, Sérgio Adriano H vem buscando compreender e questionar, como ele mesmo conceitua, o “Sistema da Verdade” ou “Verdade Apresentada”, que vem funcionando a serviço do poder, das religiões, dos interesses econômicos ou dos grupos que se perpetuam no topo da pirâmide da sociedade.

 

Na série Palavra Tomada (2018), o artista reflete sobre a relação da educação, do não poder falar e do não ter direito a pensar, já que o sistema não “ensina” a pensar sobre, aos espaços não dados e as desigualdades que se instalam em uma mesma nação. Desde 1824 todo homem livre tem direito a estudo, porém, quando a “liberdade” é dada aos negros, estes continuam sem o direito ao conhecimento, que só era dado a quem tinha condições financeiras de tê-lo. Sérgio reflete em seu processo que é através da arte que ele reconhece seu direito ao pensamento e ao estudo e é a partir dela que ele pretende interrogar o conhecimento. A arte está para Sergio como conhecimento, como produtora e reformuladora de perguntas.

 

Sergio Adriano H nos interroga. “Vamos perpetuar os mecanismos que condenam os negros a uma morte social? Uma morte lenta e diária que vem da dor do olhar, do julgamento que precede minha chegada. A dor da dor.”

 

O artista provoca-nos a perceber o quanto estamos adormecidos diante de estruturas que naturalizam os corpos marginalizados historicamente, fissuras no tecido social, político e histórico, da qual a história da arte não está ilesa.

 

Nos últimos anos uma série de exposições no país nos aponta a produção de artistas negros que reivindicam novas narrativas, operando em seus lugares de fala, revogando espaços majoritariamente mostrados e contados pela perspectiva dos brancos. Há também inserções em espaços institucionais de críticos, curadores e pesquisadores negros na produção cultural. Apesar do crescimento ainda é um cenário que necessita de mais espaços e discussões, para sair na zona de vulnerabilidade do grande apagamento e inexistência histórica.

 

Em sua obra O lugar que pertenço (2018) o corpo do artista está presente em uma estrutura que serve para amparar o lixo a ser recolhido. A performance feita para fotografia denúncia a violência dita velada, mas que está escancarada nos corpos marcados pelo estigma histórico, pelo uso e descarte, pela desvalorização da vida, pela marginalidade a que está restrita a arte de gênero e raça perante a historiografia hegemônica. Performance realizada na Rua 13 de maio em SP, data em que, desde 1888, se “comemora” a assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel, mas que ainda estamos distantes de comemorar a liberdade e autonomia das pessoas PRETAS em nosso país. Se antes da Lei Áurea o negro era uma “mercadoria”, depois dela ele é jogado e colocado a marginalidade, sem receber nada para uma nova construção de suas histórias, deixados sem terra, sem dinheiro, sem trabalho, sem comida, sem uma condição básica para sua existência.

 

Segundo Sérgio “A Arte que proponho tem o objetivo ainda maior que resistir. O momento atual é de provocar o pensamento, fomentar perguntas sobre o que achamos que já não existe mais – O Racismo. O Quilombo nunca terminou, só que agora é invisível – vê quem sente. 13 de maio de 1888 assinatura da Lei Áurea?”

 

Em contraponto ao Lugar que pertenço, está a obra de mesmo ano O lugar que não pertenço em que o artista se coloca em monumentos históricos, lugar que não tem negros, que os homenageados não são questionados e que em muitos desses monumentos há personalidades que marcaram a história por derramamento de sangue, guerra, escravidão, processos amplamente violentos de colonização e racismo.

 

Nos últimos dias vimos ações de derrubada de patrimônio que vem interrogar quem são as personalidades que homenageamos e reafirmamos em nossa memória. Se hoje este assunto está em voga, essa já é uma reivindicação do artista.

 

Atravessadas por ações corporais, as obras de Sérgio Adriano H interagem com objetos que estão dispostos para a servidão de uns em detrimento do trabalho de outros, separatismo de classes que evidenciam as pessoas com cores certas para determinados serviços, objetos que categorizam e reafirmam estigmas.

O corpo do artista está também como máquina geradora de energia para embate, debate, carne com todas as feridas expostas, carrega em sim o desafio de gerar afetos, conversas, falas e escutas.

 

Se, ao nos confrontarmos com roupas de bebês que já rotulam corpos que ainda terão uma história pela frente, parece doer a quem vê determinadas classificações, mas é no processo de um golpear que Sérgio nos faz pensar constantemente nossos atos e segregações.

 

“Você precisa saber: Seu silêncio MATA! Sua percepção sobre o RACISMO é somente quando um Homem Negro é morto asfixiado por um Policial Branco nos EUA? O racismo está embutido em falas habituais do cotidiano, “serviço de preto”, “preto de alma branca”, “a coisa tá preta”, e visto com naturalidade.

 

A sua indignação e antirracismo dura quantas horas? Uma terça-feira com tela preta no seu instagram?  Porque Negros sofrem Racismo TODOS os dias em TODOS os lugares, 24h por dia. Como estamos nos posicionando no Brasil/Mundo ontem, hoje e amanhã contra o RACISMO? Você precisa saber: Seu silêncio MATA! É preciso investigar o passado histórico colonialista escrito por homens brancos e anular os apagamentos propositais da construção da cultura/imagem negra no Brasil, uma história que meus antepassados não participaram com palavras, mas sim com mão de obra forçada na escravidão que ainda não acabou. Simplesmente se transformou. Porque Negros como eu nascem sem voz, sem ouvir, sem poder pensar, pelo simples fato de ser “Preto”. Um corpo sem direito a palavra.

 

Minha arte é um chamado interno. Tem o objetivo maior que resistir. É sobre minha existência, da minha família e de mais de 50% da população brasileira, os NEGROS.
O momento atual é de provocar o pensamento, fomentar perguntas sobre o que “achamos” que já não existe mais. O quilombo nunca terminou. O quilombo agora é invisível. Só vê quem sente.

A luta é de muitos. A luta é minha, sua. É nossa.

SER é muito mais que existir!”

 

Diante das palavras do artista, diante de refletir a atuar em nossas histórias, devemos ativamente pensar qual é nosso papel da sociedade. Compreender o lugar de fala é essencial, mas não devemos ficar calados para corroboração e perpetuação, é importantíssimo para construção de uma sociedade antirracista saber que há racismo no Brasil, e ele foi construído por pessoas brancas, e essa responsabilidade é nossa. Não podemos limpar da história essa marca, mas devemos lutar ativamente para que o sistema não continue a massacrar os negros pelos problemas postos historicamente pelos brancos, é nosso dever quebrar as estruturas.

 

Se ser artista no Brasil, principalmente nos tempos atuais, é estado difícil, ser artista negro, que denuncia sua história, seu passado e seu presente, ser artista fora das normatividades e da heterossexualidade é ainda mais desafiador, e estes enfrentamentos estão presentes na produção de Sérgio Adriano H.

 

 As estruturas tradicionais ainda predominantes na arte e na sociedade não estão dispostas a compreender sobre a mestiçagem e multiplicidade em que estamos inseridos. Estamos em um momento em que a arte chama para o engajamento, para a luta e reconstrução de nossas histórias, processos artísticos que interrogam e exclamam, tiram do eixo o já posto e provocam atravessamentos distintos que nos fazem rever nossos atos, nossas ações, nossos preconceitos.

 

Produções vindas de circuitos alternativos têm importância nessa ruptura, por ter a liberdade e responder por si as ações presentes em espaços que não são condicionados ao poder público, foram e são espaços importantes para a construção dessas novas histórias, provocando ações políticas que deflagram as histórias ocultadas.  Somos um país construído pela mestiçagem, por violações dispares do “ser humano”, um país construído pela busca de uma branquitude que violentamente tomou corpos femininos como maquinas de reprodução humana a serviço do embranquecimento da população. Para tornar o povo menos “escuro” o país, que sustenta a palavra e o poder nas mãos do homem branco heterossexual, o fez e ainda faz pelo derramamento de muito sangue negro e indígena, e na domestificação da força da mulher.

 

Choque Cultural é um dado dessa marca e re-história e de como esses espaços tornam-se agentes contaminadores para os espaços culturais governamentais olharem para nosso processo e a grande e impagável divida histórica que temos com povos negros, indígenas, mulheres e tantos artistas que ainda estão mantidos à margem.

 

Mini bio do artista

 

Sérgio Adriano H – Joinville SC – 1975. Artista visual, performer e pesquisador. Vive e produz em Joinville e São Paulo. Formado Artes Visuais e Mestre em Filosofia. Selecionado 2014 como um dos 30 artistas mais influentes do estado de Santa Catarina tendo sua biografia incluída no livro Construtores das Artes Visuais: Cinco Séculos de Artes em Santa Catarina. Como artista participou da Curatoría Forense Residências de Arte Contemporânea, Villa Alegre, Chile, 2014.

 

Premiações, destaque: Medalha Victor Meirelles – Personalidade Artes Visuais 2018, concedida pela Acla – Academia Catarinense de Letras e Artes; Aliança Francesa de Arte Contemporânea 2018; Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura Estado de Santa Catarina 2019, 2017 e 2014; 3° Salão das Artes, Mogi das Cruzes – SP, 2016; 10° Salão Nacional Elke Hering, Blumenau SC 2012; 10° Salão Nacional de Arte, Itajaí SC 2005.

 

Acervos: Museu de Santa Catarina; Museu de Itajaí; Museu de Arte de Blumenau, Sesc e privado.

 

Principais Livros: Antípodas – Diverso e Reverso, Bienal de Curitiba, 2017; Construtores das Artes Visuais: Cinco Séculos de Artes em Santa Catarina, 2014; Rumos – Convite à Viagem – Itaú Cultural, 2013; Fragmentos Urbanos – Udesc, 2013;

 

Contabiliza mais de 110 exposições, destaque:

 

Individual: Ressoar, Galeria Choque Cultural /14° Bienal de Curitiba, São Paulo, 2019; Índice, 14° Bienal de Curitiba – Polo SC, Fundação Badesc, Florianópolis, 2019; Ruptura do Invisível – encanecer, Centro de Arte Hélio Oiticica, Rio de Janeiro, 2019; Tu mata Eu, – Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos, Rio de Janeiro, 2019; Palavra Tomada, Galeria SESC, Joinville – Lages e Itajaí, 2019; Grito em Silêncio, Memorial Meyer Filho, Florianópolis, 2019; Projeto: Ruptura do Invisível – 4 Intervenções Urbana/Instalação/Ação, Florianópolis, Joinville, Jaraguá do Sul, Blumenau, 2018; Projeto: O Visível do Invisível – 10 Intervenções Urbana/Instalação/Ação,  Joinville, 2018; Projeto: A Dúvida da Verdade – Bike Galeria – 31 Intervenções Urbana/Instalação/Ação, Joinville/Curitiba, 2017/8; O Visível do Invisível – Intervenção Urbana/Instalação/Ação, Museu Alfredo Andersen, Curitiba – PR, 2017; Projeto: O Visível do Invisível – 30 Intervenções Urbana/Instalação/Ação em 15 cidades no estado de SC, 2016;  A Dúvida da Verdade, Fundação Badesc, Florianópolis – SC, 2015; 2° Provocações Urbanas, SESC, Itajaí – SC, 2015; Tudo, Museu de Arte Contemporânea – MAC, Joinville, 2008.

 

Coletivas: Fronteiras em Aberto, 14° Bienal de Curitiba, Curitiba, 2019; 8°Bienal Argentina de Fotografia Documental, Tucumano, 2018; Somos Todos Iguais, Centro Cultural de Justiça Federal, Rio de Janeiro, 2018; Bienal das Artes – SESC, Brasília, 2018; Absurdo é ter Medo – Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos, Rio de Janeiro, 2018; Desterro Desaterro – arte contemporânea em Santa Catarina, Museu de Arte de Santa Catarina, Florianópolis – SC, 2018; Antípodas – Diverso e Reverso, Bienal de Curitiba, Curitiba, 2017; Diálogo Ausentes, Itaú Cultural, São Paulo – SP, 2016/17 e Complexo da Maré,  Rio de Janeiro – RJ, 2017; O céu é o limite – Museu da Gravura Cidade de Curitiba – PR, 2015;

 

Em 2003 com a artista Priscila dos Anjos forma o Grupo P.S. contabiliza mais de 78 exposições, destaque: “Frequentar os incorporais: entre o movimento e o silêncio”, Museu de Arte de Santa Catarina, Florianópolis – SC, 2019; 5° Festival Internacional de Cinema e Direitos Humanos, Montevidéu – Uruguai, 2016; Rumos Artes Visuais: Convite à Viagem, Itaú Cultural – São Paulo – SP, 2012 e Paço Imperial, Rio de Janeiro – RJ, 2013; Rumos Artes Visuais: Volta ao Mundo em 80 dias, Centro Cultural Octo Marques, Goiânia – GO, 2012; Convite projeto ARCADEMIA de Dora Longo Bahia 28ª Bienal de São Paulo – SP, 2008.