Artistas

Marcello Nitsche

Marcello passou a infância numa oficina de pintura. O pai, William, pintava móveis, e a mãe, Vitória, decorava. Pintores de ofício formados na Alemanha, vieram de Berlim antes da guerra. Cursou o ginásio na Escola Profissional Getúlio Vargas, situada em uma antiga fábrica no Brás, em São Paulo. A escola técnica preparava pintores profissionais e exercitava nos ofícios de marcenaria, eletrônica, fundição e motores à explosão. Marcello praticava tipografia, encadernação e pintura e desenvolvia a habilidade de letrista.

Em 1966, ingressa no curso de formação de professores de desenho da Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP, em São Paulo. A herança do chão de fábrica mesclou-se com o conhecimento artístico e crítico, estimulado por experientes artistas-professores procedentes do campo artístico da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Inscreveu-se no debate central sobre educação artística promovido pelo professor Flávio Motta e integrou iniciativas didáticas pioneiras para crianças e adolescentes, como Arte na Praça, destinada ao desenvolvimento da atividade criadora em espaço público.

A década de 1960 constituiu um momento propício para o agrupamento em torno da abertura da arte para a rua. Isso estimulou o trabalho de índole coletiva, como a Manifestação do Carimbos no Salão de Brasília, 1967, e as Bandeiras na Praça, em 1967 e 1968. O revés político causado pelo golpe de 1964 e o drástico regime da ditadura militar afetaram a vida cultural e atingiram confusamente o “fazer artístico”.

A carreira de Marcello Nitsche desenvolveu-se em um contexto cultural favorável a interdisciplinaridade e experimentação de diversas linguagens, aspectos que se evidenciam em sua produção desde as primeiras obras, assim como a leitura ativa da paisagem e dos signos urbanos, e a estreita relação com o universo da arte pop e com a política. Ainda estudante, participou da exposição Nova Objetividade Brasileira, em 1967, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e, no mesmo ano, da 9a Bienal de São Paulo, quando foi contemplado com o Prêmio de Aquisição, na mostra em que a delegação americana aqueceu o debate sobre a pop art. Em 1969, ano em que obteve a licenciatura pela FAAP, expôs na 10a Bienal de São Paulo o gigantesco inflável Bolha Amarela, entre outras obras, obtendo o mais relevante prêmio para a obra de pesquisa de expositor brasileiro, atribuído pela prefeitura de São Paulo.

Nos anos 1970, fez intervenções na paisagem, como as Costuras, na Pedreira do Pilarzinho, em Curitiba, Paraná, e as inusitadas Vacas de Concreto, em Ibiúna, São Paulo. Igualmente relevantes foram os projetos urbanos, entre os quais a emblemática Garatuja, 1979, objeto produzido industrialmente para a estação do metrô Sé, em São Paulo. Nesses anos, realizou filmes em superoito, explorando o diálogo entre as artes visuais e o cinema.

A exposição Alegres Saudações, na Galeria São Paulo, em 1981, apresentada no ano seguinte no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, marcou o surgimento da série ininterrupta das pinceladas, unidades mínimas do gesto pictórico liberado do suporte da tela, que configuram pinturas-objeto. As Pinceladas de Marcello marcaram a identidade visual da campanha das Diretas Já, e o artista participou da política cultural desenvolvida pela associação dos artistas plásticos. Teve destacada atuação no cenário político da redemocratização do país, nos anos 1980.

Em obras mais recentes, como a série dos códigos de barra, de 2002, e as Explosões, de 2006, permancem os laços com a cultura pop e a apreensão ativa dos novos signos da contemporaneidade.

Obras do artista