Artistas

Rosana Ricalde

Horizonte Azul

 

Rosana Ricalde desenvolve uma série de trabalhos que tem como ponto de partida mares e oceanos. Uma cartografia imaginária (se é que podemos atestar que exista uma literalmente real) constitui-se pela agregação de seus nomes, formando um território de palavras. Nota-se, desde o início essa estranha condição daquele espaço entre, ou antes sua matéria, que parece referendar este vazio aberto desde o desmembramento da Pangea – ocupado pelas águas do oceano –, tornar-se um continente, não só visual, mas, à semelhança de Maiakovsky, um continente poético. Através do alinhamento e costura das palavras, os mares se tornam terra firme, um solo que, de fato, palmilha e se assenta sobre a superfície do papel.

 

Indo adiante, contudo, da relação que a artista estabelece entre a coisa e sua representação gráfico-verbal, emergem outras inter-relações atentas aos desafios de construir um espaço. A sempre presente tensão entre a palavra e a coisa que ela representa, parece intensificar seu acento. Afinal, se por um lado, a palavra se torna a própria coisa, uma vez que ela a um só tempo visual e verbalmente a faz real ou imaginária (mas sempre é quem lhe dá consistência), ela também é por si só,uma entidade material, .Tanto por sua existência enquanto tal, prévia às significações contextuais que adquire, quanto por seu próprio modo de efetivar-se, isto é, seu processo objetivo de inscrição no mundo, que pode ir, desde a sua moldagem plástica por uma fôrma, ou a solidificação da tinta liquefeita sobre a folha, a marca impressa em uma fita, o mosaico digital de zero e um na tela de um computador ou qualquer outra modalidade que se puder imaginar.

 

Tais oceanos, portanto, assumem, sob este ângulo a própria realidade de sua imagem: pois, se as palavras são tão reais quanto aquilo que espelham, elas migram da sombra do representado para se tornarem a geografia da sombra; seus oceanos se transmutam no desenho de uma silhueta, a qual, justamente por esta condição, reafirma ainda mais sua presença enquanto algo que se desvencilha de seu conteúdo referencial, para admitir, naquilo que retém de simulacro, sua identidade. E, mesmo que se queira levar ao extremo a hipótese da realidade irrenunciável destes oceanos / continentes, pode-se retornar à sua materialidade enfática, uma vez que alguns dos trabalhos nascem factualmente líquidos – isto é, primariamente dependem do escorrer da tinta; um oceano de mililitros, portanto (e aqui poderíamos pensá-las, inclusive, ao lado das Liquid Words, de Ruscha).  

 

Todas estas vias entrecruzadas inauguram, entretanto, mais uma, também evocada nos trabalhos. As palavras, no universo da língua, também formam mares incomensuráveis: um labirinto e uma vastidão titânica sem início, fim ou centro, talvez algumas margens. A aventura da palavra consiste em saber atravessar ou em aprender a deixar se perder, permitir desmanchar a máscara dos significados nesta extensão infinita. Se a visualidade (ou, em alguns casos, o tato) é a contrapartida à palavra para permitir que seu sentido seja oferecido, seja lido – estranhamente ela é forma e imagem – sua caligrafia sintomática, mas não expressionista, faz ela dissolver-se em seu ritmo crispado. O significado lingüístico confirma-se e volatiliza-se, conjuntamente ao desenvolver da escrita e as equivalências, se tornam similitudes, coincidências.

 

 

Guilherme Bueno  

Obras do artista