Exposição "Quintal" de Rosana Palazyan
Exposição
- Nome: Exposição "Quintal" de Rosana Palazyan
- Abertura: 28 de outubro 2026
- Visitação: até 26 de novembro 2026
Local
- Local: Anita Schwartz Galeria de Arte
- Evento Online: Não
- Endereço: R. José Roberto Macedo Soares, 30 - Gávea Rio de Janeiro | RJ
Rosana Palazyan recria a árvore de sua infância em exposição sobre tempo, espaço e sonhos
Em “Quintal”, artista reúne memórias familiares, sonhos e ensinamentos para refletir sobre a maturidade e a passagem do tempo a partir da mangueira da casa onde cresceu, no subúrbio carioca
Com curadoria de Ulisses Carrilho, mostra articula bordado, instalação e pensamento espacial em reflexões históricas e sociais
Em Quintal, Rosana Palazyan compartilha simbolicamente a mangueira que considera sua confidente de infância, recriando-a em uma instalação que incorpora sonhos e ensinamentos de pessoas com quem conversou durante a preparação da mostra. A árvore, de aproximadamente 60 anos, acompanhou a infância e a adolescência da artista no bairro da Abolição, subúrbio do Rio de Janeiro, e ganha nova forma na exposição individual na Galeria Anita Schwartz, na Gávea, com curadoria de Ulisses Carrilho. A instalação reúne tecidos translúcidos, bordados, botões antigos, caroços de manga e uma máquina de costura que pertenceu ao avô da artista.
De ascendência armênia, Rosana utiliza, desde o final dos anos 1980, fios, tecidos e objetos cotidianos para tratar de experiências de violência, exclusão e perda. Em 2015, integrou o Pavilhão da Armênia na 56ª Bienal de Veneza, vencedor do Leão de Ouro de Melhor Participação Nacional. Em Quintal, a artista se volta para a história familiar e aborda questões relacionadas ao tempo, à maturidade, aos sonhos e aos ensinamentos que atravessam diferentes momentos da vida.
A exposição nasceu do retorno de Rosana, em 2020, à casa onde cresceu, para fazer companhia à mãe, Rebeca, hoje com 95 anos. A convivência e o reencontro com a história familiar deram origem a trabalhos que também incorporam sonhos e ensinamentos recolhidos em conversas com pessoas de diferentes idades. “Costumo dizer que conto histórias particulares que chegam no coletivo. E histórias coletivas que chegam muito perto no particular”, afirma Rosana, que há décadas desenvolve trabalhos a partir de relatos pessoais.
O quintal da Abolição já aparecia na obra de Rosana muito antes desta exposição. As estrelas cadentes que observava na infância inspiraram trabalhos sobre os sonhos de adolescentes em conflito com a lei. As sombras projetadas nas paredes, as formigas e as borboletas também estiveram presentes em diferentes momentos de sua produção. Em Quintal, a artista retoma essas referências e apresenta o lugar onde surgiram muitas das imagens que marcaram sua trajetória.
A árvore dos sonhos
A instalação central reúne três séries: Botões/sonhos, Visitantes da mangueira e Sementes/ensinamentos. Na primeira, Rosana incorpora aos bordados uma coleção de botões que pertenceu ao avô, alfaiate, e foi ampliada pela avó e pela mãe. Os objetos remetem aos botões das flores da mangueira, que antecedem o surgimento dos frutos, e acompanham sonhos relatados por pessoas com quem a artista conversou durante a preparação da mostra. “Eu queria que viesse o sonho dali, daqueles botões que ainda não eram frutos. Ainda iam acontecer”, explica Rosana.
O interesse pelos sonhos acompanha a artista desde 1998, quando começou a ouvir crianças em situação de rua. A pesquisa se estendeu a adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas e a pessoas em situação de rua, cujos relatos inspiraram trabalhos apresentados na Bienal de São Paulo, em 2004. Em Quintal, Rosana amplia essa escuta para pessoas de seu círculo de relações e para familiares de amigos que não conhecia previamente. Entre as conversas, estão relatos de uma mãe e de uma avó, que revelaram desejos, lembranças e ensinamentos até então desconhecidos por suas famílias.
Em Visitantes da mangueira, pássaros e um morcego ganham forma em bordados realizados à mão com uma antiga máquina de costura da família. Apesar de trabalhar com bordado desde 1989, Rosana nunca havia costurado à máquina. Para criar as obras, conduziu manualmente os tecidos, sobrepondo linhas de diferentes cores e combinando as duas técnicas.
Na terceira série, Sementes/ensinamentos, caroços de manga recebem tiras de organza com frases recolhidas nas conversas. As palavras são escritas com sumo de romã e lápis aquarela. Fruto associado à vida e à prosperidade na cultura armênia, a romã estabelece uma ligação entre a ancestralidade da artista e a mangueira de sua infância: “Eu misturei a romã com a manga”, resume.
Memórias de família e passagem do tempo
Além da instalação central, a exposição apresenta trabalhos relacionados a diferentes períodos da história familiar e a acontecimentos recentes. Um deles, Casa, reúne desenho e bordado em uma criação compartilhada por Rosana e sua mãe, Rebeca. Em Proteção, elementos vegetais compõem um díptico que prolonga a presença da natureza na exposição.
Em Visita do dia, Rosana recupera registros feitos durante a pandemia, quando passou a fotografar e desenhar pássaros e insetos que apareciam no quintal, relacionando essas observações às notícias publicadas no mesmo período.
Em outro díptico, a artista utiliza tecidos bordados pela avó para tratar do genocídio armênio de 1915 e de episódios recentes de violência, como o deslocamento forçado de armênios de Nagorno-Karabakh, em 2023, e a guerra em Gaza, acontecimentos que Rosana acompanhou desde seu retorno à casa da infância.
Para Ulisses Carrilho, o quintal representa um espaço de passagem entre a intimidade doméstica e o mundo exterior. “O quintal não é exatamente a casa, embora pertença a ela; não é exatamente a rua, embora se abra para o mundo”, escreve o curador, que identifica na mangueira uma representação de território construída a partir de histórias, afetos, deslocamentos e perdas.
O bordado como linguagem
Rosana Palazyan começou a trabalhar com bordado no final dos anos 1980, quando estudava na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Naquele período, o contato com a obra de Arthur Bispo do Rosário foi decisivo para que ampliasse sua pesquisa, até então concentrada na pintura.
A avó de Rosana ensinou bordado em um campo de refugiados na Grécia. A artista não chegou a aprender a técnica com ela mas, durante a infância e a adolescência, observava-a diariamente. Esse contato fez com que o gesto estivesse presente e Rosana começou a bordar após a morte da avó, em um período também marcado pelo contato com a obra de Bispo do Rosário.
De acordo com o curador, a delicadeza dos materiais é uma escolha fundamental na obra de Palazyan, que utiliza fios, tecidos e pequenos objetos para abordar questões de grande dimensão histórica e social. “Em vez de aumentar o volume da história, ela diminui sua escala até que possamos escutá-la. A Grande História passa pelo fio. O trauma passa pelo tecido. A violência passa por uma palavra”, escreve Carrilho.
O tempo é uma questão central em Quintal: o tempo dos materiais, dos objetos, da casa, da mãe, da natureza e da vida. A maturidade também ocupa um lugar fundamental na exposição, que aborda os sonhos e os ensinamentos diante das transformações que atravessam as diferentes fases da existência. “Nessa exposição, eu queria tratar da questão do envelhecimento como um tabu. E qual o lugar do sonho diante de universos e realidades em que se imagina que eles possam não existir”, indaga Rosana. Os ensinamentos recolhidos nas conversas também integram essa reflexão, trazendo à tona desejos e perspectivas que nem sempre são reconhecidos nos diferentes contextos sociais.
Na Galeria Anita Schwartz, na Zona Sul do Rio, a mangueira do subúrbio reaparece feita de fios, tecidos e vestígios de outras épocas. Entre os objetos, as memórias e as histórias recolhidas pela artista, Quintal reúne diferentes gerações em torno de uma árvore que continua a produzir sentidos, mesmo longe de suas raízes.
SERVIÇO
Quintal, de Rosana Palazyan
Curadoria: Ulisses Carrilho
Abertura: 28 de outubro de 2026, às 19h
Encerramento: 26 de novembro de 2026
Anita Schwartz Galeria de Arte
R. José Roberto Macedo Soares, 30 - Gávea
Rio de Janeiro | RJ
Tel: (21) 2540-6446 | (21) 99603-0435
Website: www.anitaschwartz.com.br
Instagram: @galeria_anitaschwartz
Visitação: segunda a sexta, das 10h às 19h; sábados, das 12h às 18h