Exposição individual "Lugar de memória", de Maria Fernanda Lucena
Exposição

Exposição individual "Lugar de memória", de Maria Fernanda Lucena

Exposição

Local

  • Local: Gaby Indio da Costa Arte Contemporânea
  • Evento Online: Não
  • Endereço: Estrada da Gávea 712, São Conrado

Lugar de memória

Maria Fernanda Lucena

Curadoria Piti Tomé

 



Essa ausência bem suportada,

não é outra coisa senão o esquecimento.

É a condição da minha sobrevivência;

se eu não esquecesse, morreria.


Roland Barthes



Na presente mostra, Maria Fernanda Lucena se debruça sobre o bairro que marcou sua infância e que é parte importante da história da cidade para construir paisagens de naturezas díspares.


"Na dúvida, sempre retorno à Copacabana" me disse em uma de nossas tantas conversas, revelando o ponto de partida de sua pesquisa. Seu interesse não está exatamente no bairro emblemático, nas amplas e belas paisagens, tampouco nas ambiguidades presentes no cartão postal da Zona Sul, mas sim, no lugar da memória. As paisagens apresentadas são fragmentos pueris, fugidios, que unem passado e presente. O retorno à infância é algo caro à artista, afinal, é lá onde nos constituímos enquanto sujeitos, através da linguagem e dos afetos.


O esforço de lembrar, portanto, é uma ação recorrente na obra de Lucena desde o princípio de sua trajetória. Nesse conjunto específico, manifesta-se no ponto de fuga de uma rua qualquer (a montanha ao final, como a luz no fim de um túnel), na referência a uma loja de roupas fechada há muitas décadas, no padrão de um papel de parede desbotado. No entanto, sabemos que não há memória sem distorção, sem influência das fantasias e desejos do sujeito que a rememora, sem o que é recalcado ou sem a amnésia que recobre os primórdios da infância. É por isso que as pinturas de Lucena parecem um texto a ser decifrado, palavras soltas de um livro perdido, repleto de traços mnêmicos, fruto de uma escrita que se faz para conjugar muitos tempos distintos, tais quais as camadas da pintura.


Hoje ainda podemos ver o lustre que enfeita o saguão do Hotel Copacabana Palace e que comparece em uma pequena e virtuosa tela de Maria Fernanda. A forma geométrica e o dourado polido, próprios do art déco, nos remetem à primeira metade do século XX, mas as pinceladas aparentes e a moldura manchada entregam que estamos diante do artifício da pintura. Nada aqui é exatamente o que parece ser. A artista não nos leva à realidade objetal nem tampouco a um passado de época, mas sim ao lugar hibrido intrínseco à lembrança e – por que não? – à pintura.   


Não à toa se volta para esquinas e recantos vãos ou obsoletos. Podemos pensar tais locais – entradas de edifícios, saguões, corredores – como lugares de passagem ou não-lugares, como quer o antropólogo francês Marc Augé, onde os indivíduos permanecem anônimos e solitários, lugares abundantes na supermodernidade. Mas Lucena os alça ao exato oposto, a lugares de memória, lugares de relação com o outro e de experiência com o mundo. Pinta a infiltração de uma parede com a intimidade que outros pintariam o ateliê ou um quarto de dormir. Tudo é pessoal e, ao mesmo tempo, pertencente ao espaço público e a uma história coletiva.


Parece ser que diante do mundo atual altamente fragmentado e esvaziado de sentido, a artista busca reescrever o passado e se constituir, fincando uma bandeira na realidade. Nada melhor do que a pintura para tal empreitada. As composições realistas evocam fotografias da década de 1970, e a tinta a óleo, com sua secagem lenta, permite à artista chegar aos tons que evocam uma nostalgia do passado. Mas as imagens usadas para tais pinturas não são provenientes de feiras de antiguidade, como em outros trabalhos da artista, mas produzidas pela própria recentemente. O ontem e o hoje se fundem criando um terceiro tempo. São emblemáticas dessa fusão as telas "169 sorria" e "Gambiarra", que retratam a mistura de elementos decorativos do século XX com a cultura de vigilância presente.


As pequenas narrativas, uma vez mais, se cruzam com a história na pesquisa da artista. As paisagens – gênero recorrente na obra de Lucena – se aproximam aqui de naturezas mortas, afinal, o interesse pictórico está nos detalhes e não na grande cena. Dessa forma, Maria Fernanda Lucena constrói um outro espaço-tempo que não é o hoje nem o ontem, mas o tempo particular tão próprio de sua pintura.


 

Serviço


Piti Tomé

abertura: sábado, 22.03.25, das 16h às 20h

exposição: 22/03 a 09/05/2025

visitação: sob agendamento através do telefone ou whatsapp 21-2422.2569

local: Gaby Indio da Costa Arte Contemporânea

endereço: Estrada da Gávea 712, São Conrado

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