Exposição individual "Epitélio", de Peter de Brito
Exposição
- Nome: Exposição individual "Epitélio", de Peter de Brito
- Abertura: 28 de fevereiro 2026
- Visitação: até 11 de abril 2026
Local
- Local: Galeria Pórtico
- Evento Online: Não
- Endereço: Travessa Dona Paula, 116, Higienópolis – São Paulo, SP
Idealizador de ocupação negra em galerias e museus abre mostra em SP sobre apagamento
Com formação em biologia, Peter de Brito utiliza retratos familiares e símbolos da supremacia branca para discutir a herança das teses eugenistas no Brasil
São Paulo, fevereiro de 2026 – A Galeria Pórtico apresenta, no dia 28 de fevereiro de 2026, a primeira exposição individual de Peter de Brito no espaço, com curadoria de Claudinei Roberto da Silva. A mostra "Epitélio" inaugura o calendário da programação anual da galeria e dá continuidade à pesquisa do artista sobre mecanismos racistas que operam de múltiplas formas na sociedade e as memórias das cicatrizes que compõem esse corpo social.
Com formação em biologia, educação física e artes plásticas, Peter de Brito constrói uma prática pautada pela experimentação técnica e pela reflexão sobre o corpo, além de não dispensar a ironia, o que resulta em trabalhos de voltagem poética e política. "Meu engajamento com causas sociopolíticas começou a aparecer em meu trabalho artístico naturalmente, como resultado de um processo de imersão no tema corpo", afirma o artista.
Peter é idealizador da performance "A presença negra", criada em 2014 em parceria com Moisés Patrício. A ação promoveu a ocupação de pessoas afro-brasileiras em galerias e instituições culturais durante as aberturas de exposições. A trajetória do artista reflete esse cenário; apesar de iniciar a carreira artística há mais de 20 anos, tornou-se representado por uma galeria somente no ano passado, ao integrar a Pórtico.
Tais questionamentos surgem na série "Eugenia", em que o artista utiliza a descoloração como procedimento formal. Peter manipula água sanitária sobre tecidos de algodão preto para revelar a imagem, em um processo que define como uma "despintura construtiva". Aplicando cuidadosamente diferentes concentrações de água sanitária, com pincéis ou derramando o líquido sobre o tecido, Peter tem um controle rigoroso sobre o tempo de ação do material, onde formas se configuram em vários tons de ocre e sépia para compor o tom da pele dos personagens, conforme ele mantém ativo ou cessa a ação do cloro, com banhos de água.
Entre autorretratos e registros familiares, Peter discute a ideologia eugenista e sua herança na contemporaneidade, manifestada na violência policial e na sub-representação em cargos de liderança. No Brasil, negros somaram 86% dos mortos por intervenção policial em nove estados em 2024, segundo o relatório "Pele Alvo: crônicas de dor e luta", da Observatórios da Segurança.
O artista cita a obra "A Redenção de Cam" (1895), do espanhol Modesto Brocos (1852-1936), utilizada sempre como tradução visual da tese do branqueamento no Brasil, que anos após a abolição da escravidão, propunha formas de controle da miscigenação e do embranquecimento progressivo da população negra, em consonância com os discursos eugenistas que marcaram o final do século 19 e início do século 20.
Epitélio ou tecido epitelial
O tecido do corpo que reveste superfícies internas e externas, como a pele, funcionando como camada de proteção do organismo, é apropriado no título da mostra. Para o curador Claudinei Roberto da Silva a derme social, corrompida e machucada por séculos de ordem colonial, têm, contudo, a capacidade de cicatrizar-se.
"É comum que a superfície da pele cicatrizada adquira um matiz diferente da original, tornando-se mais escura ou mais clara, conforme a natureza do ferimento e do consequente processo de regeneração do tecido. Os indivíduos, a depender da sua disposição de espírito e condição de classe, arranjam artifícios cosméticos ou cirúrgicos para mitigar e mesmo extinguir essas marcas; mas o tecido social esgarçado não se remenda artificialmente", completa.
Entre as fotografias, o tríptico "Mimese" (2005) mostra mãos sendo lavadas com sabonete até se descolorirem. A obra marca o início da investigação de Peter sobre técnicas de descoloração em suportes que vão de pôsteres/reproduções de obras de arte ao brim de algodão. O último serve de base para a pesquisa atual, composta de pinturas de grande e pequena escala.
Em "À flor da pele" (2023), Peter articula referências de duas áreas centrais de sua trajetória — a biologia e as artes visuais. A instalação apresenta um vaso com um arranjo de flores brancas imerso em corante preto, que, gradualmente, tinge as pétalas — uma metáfora visual sobre processos de apropriação da cultura e exploração do trabalho da população negra.
Retomando as políticas de extermínio associadas à ideologia eugenista, a obra "Enquanto o seu lobo não vem" (2024) reconstrói um capuz do movimento supremacista Ku Klux Klan, no qual são bordados cílios, que remetem à personagem Emília. O trabalho dialoga, portanto, com a figura de Monteiro Lobato, escritor que integrou a Sociedade Eugênica de São Paulo, fundada em 1918.
"Acredito que esses trabalhos venham a se somar a tantos outros que dão ensejo à crítica e à reflexão sobre o assunto", completa de Brito.
SOBRE O ARTISTA
Peter de Brito nasceu em 1967, em Gastão Vidigal (SP). É formado em Educação Física, Biologia e graduou-se em Artes Plásticas pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), em 1997. Ao longo de sua trajetória, recebeu diversos prêmios em exposições coletivas, entre eles do Salão de Artes de Santo André (2000 e 2001) e o 39º Salão de Piracicaba (2007). Participou de importantes exposições coletivas, como 15º Salão da Bahia (2008); "Metrópole: Experiência Paulistana", na Pina Estação, São Paulo (2017); "Quilombo: vida, problemas e aspirações do negro", em Inhotim (2022); 30ª edição do Programa de Exposições do CCSP, São Paulo (2020); "Mãos: 35 anos da mão afro-brasileira", no MAM São Paulo (2023); e "As Vidas da Natureza-Morta, no Museu Afro Brasil Emanoel Araújo", São Paulo (2024). Realizou exposições individuais como "From Gastão to the World", na Galeria Emma Thomas (2008) e no Centro Cultural São Paulo (1998).
SOBRE O CURADOR
Claudinei Roberto da Silva é artista visual, curador e professor de Educação Artística no Departamento de Artes da Universidade de São Paulo (USP). Atuou como subcoordenador do Educativo da Fundação Bienal de São Paulo durante a 27ª Bienal de São Paulo e como coordenador de Educação no Museu Afro Brasil. Entre seus trabalhos curatoriais, destacam-se os projetos Risco#1 – Arte como Trabalho, Risco#2 – Paisagem e Risco#3 – Ausência, Memória, realizados no SESC Belenzinho; a exposição "O Banzo, o amor e a cozinha lá de casa", de Sidney Amaral, no Museu Afro Brasil. Foi coordenador artístico-pedagógico do projeto "A Journey Through the African Diaspora", do American Alliance of Museums, em parceria entre o Museu Afro Brasil e o Prince George's African American Museum. Em colaboração com Clarissa Diniz e Sandra Leibovici, assinou a curadoria da 13ª Bienal Naïfs do Brasil, no SESC Piracicaba e da mostra "Pretatitude: insurgência, emergência e afirmação na arte afro-brasileira contemporânea", apresentada nos SESCs São Carlos, Ribeirão Preto e Vila Mariana.
SOBRE A GALERIA
Fundada pelo curador e crítico Adolfo Caboclo, ao lado de seu sócio Alexandre Zákia, a Pórtico nasce com o compromisso de repensar o papel da galeria de arte na atualidade, operando como um laboratório de práticas artísticas, espaço de investigação e plataforma de circulação de ideias. O Clube Pórtico de Colecionadores propõe uma nova forma de aproximação entre público, artistas e o universo da arte impressa, convidando seus membros a integrar uma comunidade de colecionadores que, ao longo de 2026, receberão edições exclusivas de gravuras criadas especialmente para o projeto.
SERVIÇO
Epitélio, de Peter de Brito
Abertura: 28 de fevereiro de 2026, das 14h às 18h
Visitação: 28 de fevereiro a 11 de abril de 2026
Terça a sexta, das 10h às 19h, e sábados, das 10h às 17h
Galeria Pórtico
Travessa Dona Paula, 116 – Higienópolis, São Paulo
Entrada gratuita