Exposição individual "Entre Buarquianas e Bachianas", de Márcio Périgo
Exposição
- Nome: Exposição individual "Entre Buarquianas e Bachianas", de Márcio Périgo
- Abertura: 26 de abril 2026
- Visitação: até 13 de junho 2026
- Galeria: Galeria Gravura Brasileira
Local
- Local: Galeria Gravura Brasileira
- Evento Online: Não
- Endereço: Rua Ásia, 219, Cerqueira César – São Paulo, SP
"Entre Buarquianas e Bachianas"
Fazendo jus a uma forma de expressão que é tão arcaica como a própria necessidade do homem de imprimir ritos ou mensagens cifradas em uma caverna –contrariando a evanescência do tempo– a gravura tornou-se premonitória e anti-canônica. Pivô de sua própria circunstância múltipla, tangível ou tátil, a imagem gravada, voltou a ser reconhecida nessa virada do moderno ao pós-moderno quando os artistas começaram a tomar pose dela como imagética e/ou sinônimo do arquivo. Cada inflexão dela, diante dos desafios da contemporaneidade, parecia agir como gesto que espreita o olhar ou se precipita à captura de um instante. Marcio Périgo tem trabalhado como cúmplice da arte da gravura em metal por décadas. De onde senão provêm o pulsar de um gravador na virada do século vinte ao século vinte e um em sua pesquisa silenciosa e constante sobre uma síntese fértil.
Se primeiramente sua obra buscou representar, em tamanho e em intensidade, os reflexos sobre a superfície porosa da pedra –e de abarcar engenhosamente o complexo mito da caverna de Platão– sendo sua estreia a sua maior assertiva. Como autor de "Caos aparente" (1989) tornou-se o indiscutível herdeiro da constelação dos maiores gravadores do país. Enquanto dava a essa paisagem estruturada uma tessitura de concretude e memória (real e subconsciente) à gravura em si, ele devolvia um papel essencial dentro do mito fundacional da arte.
Na série mais recente, uma centena de gravuras derivam de uma outra paisagem matriz, a urbana. Em "Buarquianas" o bairro Vila Buarque, no coração do centro de São Paulo, e que ele avista desde a janela do ateliê, é o motivo motriz para exprimir uma nova noção de lugar, não menos labiríntica que a caverna. Ele a capta e a (re) produz. Cada atmosfera é filtrada como uma espécie de "imaginatio vera" pela geometria, pelos cantos do piso em madeira e pelos reflexos dos vidros acanalados que deixam entrar a luz. Paradoxalmente as "Buarquianas" devem-se mais aos detalhes e abstrações provocados pelo filtro da janela como veduta, que à totalidade da trama exterior. Novamente a síntese proveem da soma dos volumes, e o tipo de iluminação mesurando aquilo que vemos, e – "nos olha" como enunciara Didi Huberman. As linhas não se permitem ser orgânicas ou trêmulas, senão retilíneas e angulosas originadas do confronto entre sólidos prismas e ondas retinianas. Sugerirão essas linhas como zigue-zague o raio que antecede a uma ideia? E essas paralelas rematadas por viga, aludirão à estrutura primária de um monumento?
Que melhor pretexto para "revelar" as volumétricas sincronias de um habitat que um diálogo com a música clássica? O próprio artista diz se inspirar pela estrutura rítmica entre erudita e vernácula das "Bachianas" de Villa Lobos. Como nas breves composições de Villa e de Bach, presentifica um elemento que qual bumerangue se afasta, rebota no nada e volta até nos espectadores. Tal nas gravuras como nas composições musicais, cabe aquí a verdade dita e redita: "A gestalt não é forma, senão a boa forma que surge da relação".
O Hiato da Cidade
O convívio com o hiato da cidade entre as artérias de Higienópolis e o elevado Jango Goulart-Minhocão pode exprimir beleza entre algoritmos e jogos de combinações. Um ritmo entre varandas, cobogós, para aliviar a concretude dos acinzentados prédios.
Esse foi o modernismo que herdamos de um bom design pensado e digerido antropofagicamente à brasileira. Ver nessas gravuras é um convite a transitar e percorrer com a mesma vontade as camadas da cidade, simplificadas em formas elementares que confluem na gravura.
O vazio entra para dar acústica. Nos intervalos um novo desafio por aramar. Verticais e horizontais, pontos e ramificações não apenas falam da forma física, mas das vibrações e as temperaturas das cores: ou neutras, ou sanguíneas, ou frias e azuladas, elas se superpõem-se e se justapõem. Coadjuvantes ou protagônicas as gradações de luz ou vértice na gravura.
Xenia Benito
Ph. D. História e Crítica da Arte
Pesquisadora e Curadora independente
SOBRE O ARTISTA
Márcio Périgo (São Paulo- 1949) iniciou seu trabalho em gravura em metal na Fundação Armando Álvares Penteado, em 1972, como matéria curricular com Evandro Carlos Jardim no curso de graduação em Comunicação Visual. Em 1977 obteve o título de Bacharel em Comunicação Visual, quando apresentou um painel voltado a um estudo gráfico da obra Grande Sertão-Veredas, de João Guimarães Rosa. Obteve o título de mestre na área de Poéticas Visuais em 2001, com a dissertação A Matéria da Sombra e em 2009 o título de doutor apresentando a tese Caos Aparente – Sinais gráficos na Universidade Estadual de Campinas UNICAMP.
Desenvolve seu trabalho na área da gravura. Esta produção artística trata principalmente de questões matéricas, construtivas e espaciais, através dos procedimentos de desenho, pintura, gravura e objetos escultóricos, que utiliza na investigação da construção das imagens nas representações bidimensionais do espaço.
SOBRE A CURADORA
Xenia Roque Benito possui graduação em História da Arte pela Universidad de La Habana (2001) é mestre em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2007) e doutora pelo Programa de Pós-Graduação Interunidades em Estética e História da Arte da Universidade de São Paulo (PGEHA- MAC-USP) (2021). Possui graduação em Licenciatura em Artes Visuais (2022). Tem experiência na área de Artes, com ênfase em Artes Plásticas, atuando principalmente nos seguintes temas: arte latino-americana, arte contemporânea, arte brasileira moderna e contemporânea. Recentemente coordena pesquisas sobre o Surrealismo no Novo Mundo. Colabora com a Revista especializada em arte ArtNexus Internacional.
Serviço
Exposição: Entre Buarquianas e Bachianas
Curadoria: Xenia Benito
Abertura: 25 de abril de 2026 (sábado), 13-17h
Período expositivo: até 13 de junho de 2026
Local: Galeria Gravura Brasileira
Endereço: Rua Ásia, 219 – Cerqueira César, São Paulo – SP
Entrada: gratuita
Instagram: @gravurabrasileira, @marcioperigo