Exposição individual "desorientação e firmeza", de Lilian Camelli
Exposição

Exposição individual "desorientação e firmeza", de Lilian Camelli

Exposição

  • Nome: Exposição individual "desorientação e firmeza", de Lilian Camelli
  • Abertura: 14 de março 2026
  • Visitação: até 01 de abril 2026

Local

  • Local: Galeria Contempo
  • Evento Online: Não
  • Endereço: Al. Gabriel Monteiro da Silva, 1644

desorientação e firmeza


lilian camelli



O principal dilema do artista moderno esteve sempre no desafio de superar a si mesmo. Não por acaso, a pintura moderna se formou sobre um chão instável, em que cada novo trabalho deveria medir até onde é possível deslocar os recursos disponíveis sem que a imagem perdesse a sua consistência. E o fato é que, convivendo há alguns anos com o trabalho de Lilian Camelli, fico cada vez mais convencido de que boa parte da ética que rege a sua produção reside justamente num esforço por testar continuamente até onde se pode desorientar a imagem sem romper com o seu compromisso em relação ao real. Mas, no caso desses trabalhos, isso se dá na tentativa de representar as figuras de natureza incerta da lembrança naquilo o que elas têm de mais fiel na sua condição turva e enviesada.


Seja pela continuidade que as padronagens ornamentais estabelecem entre diferentes paredes, ou pela profundidade relativa implicada pela sequência de portas nos corredores, os trabalhos abandonam um sistema claro de organização entre os planos e desestabilizam a ordem tridimensional. É por essa razão que cadeiras, mesas e cortinas – ao preservarem os seus volumes internos – sugerem uma tridimensionalidade relativa e, com isso, o desenvolvimento de certa resistência dos objetos em participar integralmente do espaço. Em El sofá estampado, por exemplo, a poltrona mantém uma densidade que a distingue do fundo a que ela está inserida. E adquirindo, então, um tipo de desencaixe, termina situada dentro do espaço na medida em que permanece ligeiramente deslocados dela, como se pertencesse a uma realidade distinta.


O fato é que, por mais que as cores sustentem alguma continuidade, os diferentes regimes espaciais estabelecem certa reorganização mais livre para os elementos do mundo. Em pinturas como La cruz de Madera, as superfícies padronizadas avançam sobre o espaço arquitetônico, dissolvendo os limites que deveriam organizar o interior – como se as paredes deixassem de funcionar arquitetonicamente e assumissem a forma de campos contínuos. Mas, havendo uma desorientação generalizada quanto à organização espacial das estruturas, não deixa também de existir um esforço por recompor continuamente certa ordem visual capaz de sustentar as tensões. As cores organizam os campos da pintura, estabelecem ritmos entre planos e mantêm as partes em relação e, assim, garantem algum tipo de firmeza ou unidade ao conjunto.


Por vezes, tendo a crer que, à maneira da sua própria formação como cidadã paraguaia em longo contato com o Brasil, Lilian se desafia a produzir pinturas fiéis ao que são as imagens enviesadas da memória. O aspecto desorientador assumido pelas telas encontra a mesma dificuldade de uma vida plenamente acordada à sombra de um espaço que, de alguma forma não sendo, passa a ser o que mais nos identificamos. Conheço poucas pessoas tão firmes e generosas quanto Lilian e vejo muito disso no acolhimento contrariado das suas pinturas, que conseguem construir interiores tão íntimos e universais ao mesmo tempo. Enfrentar os dias parece, nessas telas, uma forma de desafiar a saudade, e a nós mesmos. E ainda que o peso desse desencaixe volte sempre como uma lembrança do obstáculo que é a nossa incompletude, ele também reitera algo da clareza de que não seria possível habitarmos um lugar mais certo.


texto crítico

Gabriel San Martin


Lilian Camelli

1958 | ypacaraí – paraguai


Pintora paraguaia que articulou como poucos uma poética da interioridade e desenvolveu uma espacialidade individualizada na qual campos pictóricos atuam como memória, ausência e imaginação. Suas composições constroem atmosferas — planos rasos, superfícies polidas ou levemente corroídas, luzes contidas — que oscilam entre o familiar e o espectral.


A cor e o tratamento da superfície são vetores centrais: matizes envelhecidas e sutis variações tonais criam profundidades ilusórias que não se abrem para o espaço, sugerem antes camadas de lembrança. O pincel ora modela volumes com delicadeza, ora raspa e apaga, produzindo bordas imprecisas e transições que fazem a imagem vacilar entre presença e desaparecimento. Texturas finas e veladuras atuam como pele sobre os objetos, conferindo-lhes uma qualidade quase tátil e, simultaneamente, fantasmagórica.


Os interiores que Lilian Camelli reconstrói são cenários de intimidade deslocada: móveis, tecidos e objetos cotidianos aparecem como vestígios afetivos, dispostos em composições que privilegiam o equilíbrio silencioso e a tensão psicológica. A escala e o enquadramento reforçam a sensação de proximidade claustrofóbica; a profundidade rasa transforma o espaço em superfície narrativa, onde o passado insiste em reverberar no presente.


No conjunto, sua pintura opera por sutilezas — economia de gesto, controle tonal e atenção à materialidade — para produzir imagens que afirmam e desfazem simultaneamente. Essa ambivalência estética, entre o lírico e o inquietante, é o que confere às suas obras uma presença duradoura nas coleções e exposições em que figura.


Serviço

desorientação e firmeza


al. gabriel monteiro da silva, 1644


desorientação e firmeza


lilian camelli



O principal dilema do artista moderno esteve sempre no desafio de

superar a si mesmo. Não por acaso, a pintura moderna se formou sobre

um chão instável, em que cada novo trabalho deveria medir até onde é

possível deslocar os recursos disponíveis sem que a imagem perdesse a

sua consistência. E o fato é que, convivendo há alguns anos com o

trabalho de Lilian Camelli, fico cada vez mais convencido de que boa

parte da ética que rege a sua produção reside justamente num esforço

por testar continuamente até onde se pode desorientar a imagem sem

romper com o seu compromisso em relação ao real. Mas, no caso desses

trabalhos, isso se dá na tentativa de representar as figuras de natureza

incerta da lembrança naquilo o que elas têm de mais fiel na sua condição

turva e enviesada.


Seja pela continuidade que as padronagens ornamentais estabelecem

entre diferentes paredes, ou pela profundidade relativa implicada pela

sequência de portas nos corredores, os trabalhos abandonam um

sistema claro de organização entre os planos e desestabilizam a ordem

tridimensional. É por essa razão que cadeiras, mesas e cortinas – ao

preservarem os seus volumes internos – sugerem uma

tridimensionalidade relativa e, com isso, o desenvolvimento de certa

resistência dos objetos em participar integralmente do espaço. Em El

sofá estampado, por exemplo, a poltrona mantém uma densidade que a

distingue do fundo a que ela está inserida. E adquirindo, então, um tipo

de desencaixe, termina situada dentro do espaço na medida em que

permanece ligeiramente deslocados dela, como se pertencesse a uma

realidade distinta.


O fato é que, por mais que as cores sustentem alguma continuidade, os

diferentes regimes espaciais estabelecem certa reorganização mais livre

para os elementos do mundo. Em pinturas como La cruz de Madera, as

superfícies padronizadas avançam sobre o espaço arquitetônico,

dissolvendo os limites que deveriam organizar o interior – como se as

paredes deixassem de funcionar arquitetonicamente e assumissem a forma

de campos contínuos. Mas, havendo uma desorientação generalizada quanto

à organização espacial das estruturas, não deixa também de existir um

esforço por recompor continuamente certa ordem visual capaz de sustentar

as tensões. As cores organizam os campos da pintura, estabelecem ritmos

entre planos e mantêm as partes em relação e, assim, garantem algum tipo

de firmeza ou unidade ao conjunto.


Por vezes, tendo a crer que, à maneira da sua própria formação como cidadã

paraguaia em longo contato com o Brasil, Lilian se desafia a produzir

pinturas fiéis ao que são as imagens enviesadas da memória. O aspecto

desorientador assumido pelas telas encontra a mesma dificuldade de uma

vida plenamente acordada à sombra de um espaço que, de alguma forma

não sendo, passa a ser o que mais nos identificamos. Conheço poucas

pessoas tão firmes e generosas quanto Lilian e vejo muito disso no

acolhimento contrariado das suas pinturas, que conseguem construir

interiores tão íntimos e universais ao mesmo tempo. Enfrentar os dias

parece, nessas telas, uma forma de desafiar a saudade, e a nós mesmos. E

ainda que o peso desse desencaixe volte sempre como uma lembrança do

obstáculo que é a nossa incompletude, ele também reitera algo da clareza de

que não seria possível habitarmos um lugar mais certo.


texto crítico

Gabriel San Martin


Lilian Camelli

1958 | ypacaraí – paraguai


Pintora paraguaia que articulou como poucos uma poética da interioridade e desenvolveu uma

espacialidade individualizada na qual campos pictóricos atuam como memória, ausência e

imaginação. Suas composições constroem atmosferas — planos rasos, superfícies polidas ou

levemente corroídas, luzes contidas — que oscilam entre o familiar e o espectral.


A cor e o tratamento da superfície são vetores centrais: matizes envelhecidas e sutis variações tonais

criam profundidades ilusórias que não se abrem para o espaço, sugerem antes camadas de lembrança.

O pincel ora modela volumes com delicadeza, ora raspa e apaga, produzindo bordas imprecisas e

transições que fazem a imagem vacilar entre presença e desaparecimento. Texturas finas e veladuras

atuam como pele sobre os objetos, conferindo-lhes uma qualidade quase tátil e, simultaneamente,

fantasmagórica.


Os interiores que Lilian Camelli reconstrói são cenários de intimidade deslocada: móveis, tecidos e

objetos cotidianos aparecem como vestígios afetivos, dispostos em composições que privilegiam o

equilíbrio silencioso e a tensão psicológica. A escala e o enquadramento reforçam a sensação de

proximidade claustrofóbica; a profundidade rasa transforma o espaço em superfície narrativa, onde o

passado insiste em reverberar no presente.


No conjunto, sua pintura opera por sutilezas — economia de gesto, controle tonal e atenção à

materialidade — para produzir imagens que afirmam e desfazem simultaneamente. Essa ambivalência

estética, entre o lírico e o inquietante, é o que confere às suas obras uma presença duradoura nas

coleções e exposições em que figura.


Serviço

desorientação e firmeza

lilian camelli


al. gabriel monteiro da silva, 1644


14.03 - 01.04


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