Exposição individual "As feras / Às feras", de Ana Neves
Exposição
- Nome: Exposição individual "As feras / Às feras", de Ana Neves
- Abertura: 26 de maio 2026
- Visitação: até 11 de julho 2026
Local
- Local: Danielian Galeria São Paulo
- Evento Online: Não
- Endereço: Rua Estados Unidos, 2114, Jardim América – São Paulo, SP
As feras / Às feras
Ana Neves
“Escrevo como se você estivesse comigo; encaro o perigo; como se estivesse apagando. Vivo como se estivesse morrendo e devo atribuir a quem esse traço?”
Ana Neves
Há uma continuidade evidente no que a Ana Neves artista faz: pintar, desenhar, escrever, atuar. Nada explica o outro. A escrita não comenta a imagem, ela participa do mesmo gesto. Não funciona como chave, mas como temperatura de um modo de fazer onde afirmar e desfazer caminham juntos.
Os desenhos e pinturas parecem feitos sob pressão. A linha delimita, retorna, reforça, insiste sobre si mesma. Como se precisasse repetir para surgir. Em alguns momentos, quase fere a superfície. Em outros, falha, rareia, deixa o corpo escapar. Há áreas onde a matéria se adensa, a cor acumula, pesa, e outras onde tudo parece prestes a desaparecer.
Antes de se fixar como pintura ou desenho, o trabalho de Ana Neves parece acontecer num outro plano, algo próximo de uma cena em formação, ou mesmo de um estado de rito, onde o corpo, a imagem e a linguagem ainda não se separaram.
Os corpos não chegam prontos. Eles são feitos, e às vezes desfeitos, no mesmo movimento. Algumas figuras lembram animais, outras mantêm algo de humano, mas nenhuma se acomoda nessas categorias. Uma cabeça se prolonga demais, um membro se dobra onde não deveria, duas formas dividem o mesmo contorno. É difícil dizer onde uma figura termina e outra começa.
Talvez faça sentido pensar essa cena como algo que não pertence apenas ao humano. Em seu livro Mito, Literatura e o Mundo Africano (2024), Wole Soyinka discorre sobre a cena que se abre como um campo ligado ao cosmo, um espaço onde diferentes forças coexistem, onde o visível nunca dá conta do que está em jogo. Há um elemento disso aqui: as imagens parecem responder a um ritmo que não se encerra nelas, como se fossem atravessadas por algo que continua.
Ao mesmo tempo, quando Augusto Boal fala do momento no livro O Arco-Íris do Desejo (1990), onde o sujeito se vê em ação, ele descreve uma dobra entre quem faz e quem observa. No trabalho de Neves, essa dobra não organiza, ela multiplica. Cada figura parece se ver enquanto muda, e nesse gesto já não é mais a mesma.
Há ainda a repetição, não como forma, mas como insistência. Certos gestos voltam, certos corpos reaparecem, mas sempre um pouco deslocados de si. Como se o desenho funcionasse por reiteração, por aproximação, como quem insiste até se manifestar algo que não estava dado. É nesse sentido que a relação entre rito e drama, pensada por Leda Maria Martins, ganha presença: não há representação de algo anterior, mas uma atualização contínua, feita no próprio gesto.
É nesse campo que as feras se tornam incontornáveis.
Elas não aparecem como figuras isoladas. Estão no modo como o corpo se forma, ou se deforma. Às vezes reconhecíveis, às vezes quase dissolvidas, mas sempre presentes como força que impede a imagem de se estabilizar.
Ao longo da história, a fera serviu para marcar o que deveria ser contido, nomeado, mantido à distância. Aqui, essa separação não se sustenta. Não há nada seguro. As figuras não representam feras, mas se aproximam do desencontro, quando o traço já não controla totalmente o que aparece, quando a forma começa a escapar. A pintura e o desenho tornam-se, então, um lugar de negociação contínua. Entre controle e perda, entre fazer e desfazer, entre aquilo que aparece e aquilo que insiste em não se deixar fixar.
E talvez seja isso que sustenta o trabalho de Neves.
Nada se resolve por completo.
As feras não são exceção. São o que mantém tudo em movimento.
Ariana Nuala
Diário de bordo / processos de Ana Neves
Aparicíon
E eis que de manhã o sol menino desescora a porta.
11: 3 : 6 : 9
Os incontáveis números descontinuados nunca deixam de dizer. Não com certeza, mas com mistérios inconfundíveis: agouros procurados: mandingas exigidas – não por credo.
Como uma aparição desenho a fera. Seu corpo de casca, de roupa ou de nu em encontro ao outro sabe dizer, mas a boca cala.
Então eu abro a boca da fera a fim de saber o que cabe dentro das palavras por debaixo da língua. O que cresce entre os dentes, escurecendo as gengivas e cintila o céu da boca. O que acontece na juntura dos lábios despreparados e se cala na urgência imprecisa de dizer.
Abrir a boca é para este corpo um grande soluço. Solução imediata do desejo de dizer ao outro parte do que se é, o que sabe de si – essa sempre notícia inesperada. É para a própria boca um susto: uma violação desmedida: rasura no oco.
Depois de abrir a boca do barro, soprou-lhe Deus um violento vento de vida e encheu de fundamento aquele vão que em silêncio esperou entender.
Agora vês o corpo?
Olha-o nos olhos, repare no que pode o incipiente verbo fazer no silêncio.
Vê que é delicado, que quase chora porque dizer lhe engendra violência e lhe tira o neutro estado de vigília. Porque dizer garante a fera de ferir, sem a proteger de ser ferida.
Então agora cresce em torno da certeza, porque dizer causa três feridas no mistério: de si, do outro e do mundo. E nada remedia o que a palavra infere.
Verboreio a imagem. Estico na tessitura da tela um dizer mais vadio do que estático: self de mim – que também sou fera.
Macaco
Tamanduá
Porco-espinho
Corro o olho sobre a fera que criei e, com minha natureza tacanha, invalido o que revelo. Disfarço o risco que corro tentando amansar o indomável.
Pangolim
Babirussa
Búfalo
Quando acaba de nascer um búfalo não sabe que nasceu. Fica imerso num limbo não-sei: a ignorância contempla toda sua vida, que embora curta, tem grande valia. Mas o que é humano sabe a hora que nasce– tanto que chora. Embora não pense em nada disso porque antes de pensar, o ser humano sente.
Para criar tiro de mim essa fissura de saber para continuar sentindo.
Volto a boca da fera para acrescentar passado na vontade e dou-lhe dentes porque tudo é ameaça para quem acaba de nascer sem palavras.
Sei que antes vem o pensamento como uma agonia deitada por debaixo da pele, então a palavra se abre porque o corpo inteiro já sabe.
11/03/2026
Ao madrugar um pensamento não sei se estou descobrindo ou amansando a minha fera. Ou ela, que não é mansa, está me ensinando a ranger. O certo é que ao fugir de uma encontro a outra, abrindo a boca com seus mais de 20 dentes e com tudo o que tem a dizer. Então engulo com os ouvidos seu rangido. Não sou ferida, nem vou ferir.
Eu com a faca que guardo na bainha. Eu sem minha casa, acumulando chaves. Eu com meu peito amostra, violento querer. Eu que não sei sentir sem me encontrar num descampado. Coração nessa hora é tanto sangre que sangra, tanto que cresce 10cm e ensaia explodir. Eu que não acostumo a cavar valas para plantar esperança e só dar secura, desengano, solidão.
Sol dadinho:
Inofensiva lembrança
Chumbo de prata
Roedeira
em dia de domingo
Na hora exata
Do almoço.
12/04/2026
A palavra tem um oco. Uma transparência visível. O que preenche faltando.
Para lidar com faltas é que foi feita as madrugadas.
Serviço
As feras/ Às feras | Ana Neves
26.05.2026 — 11.07.2026
Curadoria Ariana Nuala
Danielian Galeria São Paulo
Rua Estados Unidos, 2114 - Jardim América
São Paulo
SP