Exposição coletiva "O mal dos trópicos"
Exposição
- Nome: Exposição coletiva "O mal dos trópicos"
- Abertura: 05 de maio 2026
- Visitação: até 30 de maio 2026
- Galeria: Galeria Lica Pedrosa
Local
- Local: Galeria Lica Pedrosa
- Evento Online: Não
- Endereço: Rua Padre Manuel Chaves, 44. Jardim Europa – São Paulo, SP
O mal dos trópicos
O mal dos trópicos é não se reconhecer.
Na América Latina, colonizada por uma invasão europeia que trouxe consigo não apenas armas, línguas e governos, mas também modos de ver, muito se falou de um suposto mal tropical: uma doença da terra, do clima, dos corpos, dos costumes. Chamaram de indolência aquilo que era outro ritmo; chamaram de atraso aquilo que não obedecia à forma europeia do progresso.
É revelador que cidades como Rio de Janeiro e Buenos Aires tenham, em algum momento, desejado ser uma espécie de Paris tropical: como se a grandeza de uma cidade latino-americana dependesse de sua capacidade de se afastar de si mesma. O nome desse pacto é colonialismo. Nele, metrópole e colônia não ocupam apenas lugares opostos; participam de uma mesma engrenagem de desejo, vergonha e imitação.
Esta exposição parte de outro gesto: sem negar o trópico ou purificá-lo, sem transformar dor em redenção para a seguir reduzir a realidade ao folclore ou caricatura. O mal dos trópicos reúne Juan Pablo Mapeto, Maria Luiza Mazzetto e Olívia Lacerda em torno de uma paisagem atravessada por beleza e ferida, festa e horror, exuberância e exaustão. Aqui, aquilo que antes foi nomeado como falta reaparece como potência.
Em alguma medida, os três artistas trabalham a paisagem.
Juan Pablo Mapeto atravessa a tela com uma linha, que é o encontro de duas camadas de cor: o vermelho [quase vinho] e o branco [quando há]. Com isso, o pintor chileno cria um horizonte essencial: a linha limite da curvatura da terra, a linha resultante do encontro entre a porção celeste e a porção telúrica no firmamento. Sobre esse horizonte mínimo, o pintor elege e desdobra imagens que são quase apropriações – se de livros didáticos ou stickers utilizados nas redes sociais, não importa – onde o pintor está explorando como a circulação contemporânea das imagens cria e reescreve conteúdos. O caos é sua matéria-prima e Mapeto parece tentar dar forma a ele, com a clareza de que a forma do caos está sempre a um instante de desabar.
Maria Luiza Mazzetto por sua vez está sempre agremiando camadas às suas pinturas. E, a cada camada a artista parece descrever mais uma parte de uma paisagem impossível. Ela explora o tema floral atravessando livros, telas e papéis. O resultado dessas imagens que se encaixam e se colam é vivo e cheio. Por vezes, quase claustrofóbico. Se as gravuras da época da viagem pitoresca ao Brasil de Hans Staden mostravam a claustrofobia da selva indomada e cheia de habitantes e sons desconhecidos, nas mãos de Maria Luiza essas pinturas, desenhos e colagens são festeiras e seu preenchimento pleno [ou quase pleno a depender da obra] parecem refletir o indômito do povo. Nestas terras o que não se pode domar é a alegria, para todo o resto sempre há um remédio – por amargo que seja.
Enquanto Olívia Lacerda explora com sua pintura a própria matéria do mundo. O óleo é a base para o pigmento a tela é o vetor. Olívia, porém, constrói imagens em terreno desnivelado. Não há lisura em sua pintura, pelo contrário: os volumes, os acúmulos, as ranhuras [não consigo deixar de ver um buril – ferramenta de gravadores e escultores, mas não de pinturas – agindo sobre a camada espessa que às vezes é a base e às vezes é a própria pintura] são ferramentas deliberadas utilizadas pela pintora paulista para criar um estado de suspensão onde a pintura não representa o mundo, ela é uma parte do mundo. São flores de uma nova argila, uma matéria de terras e óleos conjurando uma imagem que supomos ser a de uma paisagem, ou de uma relva ou de flores. A natureza na obra de Olívia é sempre viva.
Entre o horizonte instável de Mapeto, onde imagens se reorganizam à beira do colapso, as paisagens saturadas de Maria Luiza Mazzetto, onde tudo insiste em existir ao mesmo tempo, e a matéria viva de Olívia Lacerda, onde a pintura deixa de representar para se tornar mundo: encontramos um deslocamento ao invés de uma resposta definitiva sobre a vida no Sul global, os trópicos.O que antes foi nomeado como falha, atraso ou excesso, aqui se afirma como condição.
O mal dos trópicos nunca esteve na terra.
Serviço
O MAL DOS TRÓPICOS
JUAN PABLO MAPETO, MARIA LUIZA MAZZETTO E OLIVIA LACERDA
CURADORIA PAULO GALLINA
05.05.26 - 30.05.26
| Rua Padre Manuel Chaves, 44. Jardim Europa, São Paulo, SP |
| Estacionamento Rua Amauri, 59 |