Exposição coletiva "Carimbos" de Guto Lacaz e Flavio Motta
Exposição

Exposição coletiva "Carimbos" de Guto Lacaz e Flavio Motta

Exposição

  • Nome: Exposição coletiva "Carimbos" de Guto Lacaz e Flavio Motta
  • Abertura: 12 de setembro 2026
  • Visitação: até 15 de outubro 2026

Local

  • Local: Galeria MaPa
  • Evento Online: Não
  • Endereço: Rua Costa, 31, Consolação - São Paulo, Brasil

Galeria MaPa apresenta


Guto Lacaz e Flavio Motta "CARIMBOS"


Existe uma diferença entre o desenho feito à mão, único, irrepetível, e o gesto de carimbar: uma pancada seca repetida quantas vezes for preciso, sem hierarquia entre a primeira e a milésima impressão. Flávio Motta entendeu cedo que essa diferença não precisava significar uma distância. Em algumas de suas ilustrações, o carimbo funciona como apoio e colaboração ao desenho: um traço em grafite que nasce sobre um carimbo de carta, ou de qualquer outra coisa à sua mão — o desenho, não ao lado do timbre, mas com ele. Do ponto de vista artístico, essa relação ganhou forma coletiva e pública em 1967, no Salão de Arte de Brasília, quando Motta reuniu doze artistas e convidou-os a produzir carimbos que o próprio público poderia usar ali mesmo: o visitante carimbava, o artista assinava, e a gravura ia para casa. Estavam ali, entre outros, Caciporé Torres, Carmela Gross, Claudio Tozzi, Flávio Império, Geraldo de Barros, Marcello Nitsche, Mário Gruber e Nelson Leirner, além do próprio Flávio Motta. O momento não era aleatório: o país vivia sob a ditadura militar e Brasília era sede do seu aparelho burocrático. O carimbo é, por definição, um instrumento destinado à reprodução, mas na esfera pública torna-se um símbolo de poder. Colocá-lo nas mãos do público, na capital do País, era um ato aparentemente simples, além de irônico. A militância política de Flávio Motta não era explícita, mas propor um Salão em que o visitante era coautor tornava a arte, nas entrelinhas, subversiva. Esse elo entre carimbadas, arte e gestos críticos não se encerrou em 1967. Carmela Gross seguiu fazendo do carimbo uma marca de sua trajetória, e o próprio Motta voltaria ao tema em 1978, ao escrever sobre uma exposição dela, chamando o carimbo de “infiltração da burocracia no território do desenho”1, retomando, anos depois, a conexão criada em Brasília. Já Geraldo de Barros assumiu essa ironia de forma mais literal: batizou seu carimbo de Carimbada Federal, transformando qualquer visitante disposto em uma autoridade, mesmo que só enquanto durasse o ato de carimbar. Essa ideia de que uma criação artística só se completa com a cumplicidade do público não é exclusividade do carimbo. Em 1965, Marcel Duchamp afirmou que “o ato criador não é executado pelo artista sozinho”2, ou seja, é o público quem estabelece a conexão entre a obra e o mundo. O carimbo talvez seja a forma mais simples e literal possível dessa ideia: o artista cria a matriz, mas a obra só nasce, de fato, no gesto de quem carimba. É essa mesma lógica que a MaPa reencena ao colocar lado a lado o núcleo histórico de 1967 e os Duplos que Guto Lacaz produziu este ano. Guto e Flávio Motta se conheceram somente em 2004, mas cultivavam ligações de alma (e de traço) que antecipavam esse encontro. Se para Flávio Motta uma aula não era completa sem alunos, para Guto Lacaz sua obra não é válida sem quem a observa e, em muitas delas, interage: o público entra como parte ativa em peças como Rotores (2008), Biciclóptica (2015), Volta-Dada (2014) e Adoraroda (2017), sobre a qual o artista disse que, sem as interações, sua obra existe, mas fica sem graça. Em 1999, na Casa das Rosas, ele já havia levado essa lógica ao extremo com o RG Enigmático: utilizando pedais, visitantes operavam uma impressora gigante em que cada algarismo era representado por um símbolo tropical para reconstruir seu próprio documento de identidade, como uma monotipia. É o mesmo princípio do Salão de Brasília, mas agora voltado a outra burocracia. Lacaz agora transforma algumas de suas grandes esculturas em carimbos: Ulysses, o elefante biruta (2014) e ALEX ALEX (2015) viraram alguns dos ícones dos Duplos. A política não se faz aqui de forma explícita, mas tudo o que faz — e como faz — é, para ele, um ato político. Envolver o público é a forma de tratar a cultura como algo compartilhado, não imposto. Vale notar que os Duplos não dialogam diretamente com os carimbos históricos — dialogam pelo formato (o carimbo, a carimbada, a exigência de participação), mas o contexto é outro. Os carimbos do grupo de 1967 carregam a tensão política de seu momento; os de Guto Lacaz são ícones de traço limpo, herdeiros de uma trajetória marcada por humor sutil. É essa afinidade de espírito, mais do que um vínculo de ideias, que une os dois núcleos desta mostra: a validação da arte não depende só de quem a assina, mas principalmente de quem desfruta dela.

Serviço
Guto Lacaz e Flavio Motta
Curadoria de Gloria Motta e Paula Motta
Texto crítico de Nina Lacaz

Abertura dia 12/09, Sábado, das 11h às 17h
de 12/09/26 até 15/10/26

Local: Galeria MaPa
Rua Costa, 31 - galeria (travessa da rua Bela Cintra, sentido Higienópolis)
estacionamento na rua Bela Cintra, 341

contato: fundodearte@gmail.com
11 9910 8873 (Marcelo Pallotta)


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