Exposição coletiva "Ainda Bem"
Exposição
- Nome: Exposição coletiva "Ainda Bem"
- Abertura: 26 de maio 2026
- Visitação: até 11 de julho 2026
Local
- Local: Danielian Galeria São Paulo
- Evento Online: Não
- Endereço: Rua Estados Unidos, 2114, Jardim América – São Paulo, SP
Ainda bem
Em 1900, Manuel Teixeira da Rocha representou uma família observando Paris através da janela. A luz que invade o ambiente requintado — adornado por papel de parede, vasos de flores, brinquedos e mobiliário elegante — ilumina os olhares melancólicos de uma mulher branca e seus três filhos, confinados à domesticidade da vida familiar. Recobertos pelo fausto de suas vestes, os personagens manifestam, de modo silencioso e ambivalente, seu fascínio e apreensão diante da exterioridade que lhes chega sob a forma da paisagem envidraçada da cidade moderna. Trancafiados na segurança solitária de uma residência luxuosa, encenam as condições em torno das quais se constrói esta exposição: as estruturas de um mundo fundado na propriedade, na separação e no privilégio, orientado pela e para a burguesia.
A partir da experiência da Danielian Galeria com a arte situada entre o século XIX e início do XX, Ainda bem reúne alguns exemplares da pintura burguesa que adquiriu força política e simbólica no referido período. Trata-se de uma combinação entre retrato e pintura de gênero empenhada em consolidar um imaginário da classe urbana então ascendente, que — no Brasil, em especial em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo — buscava representar a si mesma como próspera, refinada e culturalmente vinculada à Europa. Através da sensibilidade habilidosa (e não raro criticamente ambígua) de artistas como Moreau, Amoedo, Papf ou Weingärtner, famílias e personagens burgueses emergem no abastado ambiente de salas, bibliotecas e ateliês, protagonizando uma arte de distinção social que hoje se vê confrontada por outros sujeitos, repertórios e projetos.
Tomamos como pano de fundo a recente emergência de práticas — ou, ao menos, de retóricas — voltadas à equidade de gênero, ao antirracismo, ao enfrentamento das desigualdades sociais e à responsabilidade ambiental, hoje bastante disseminadas pelo chamado mundo das artes. Talvez sintomaticamente, enquanto o planeta arde em guerras, colapsos climáticos e políticas de supremacia racial, em galerias, instituições, feiras, ateliês, coleções e universidades nutre-se a expectativa de que as antigas — e persistentes — tradições elitistas, racistas e patriarcais da arte estariam em crise e, enfim, em vias de dissolução. Portanto, é neste momento de intensificação da sensação de “fim do mundo” que evocamos o imaginário burguês para novamente expor e confrontar suas violências, nas quais a própria arte está implicada. Interessa-nos especular acerca do esgotamento histórico desse modo de organização social e de suas formas artísticas, conjurando a possibilidade de sua desintegração.
Ainda bem filia-se à perspectiva autocrítica, irônica e tragicômica de Gustavo Speridião em Ainda bem que esse tipo de arte um dia irá acabar (2026) — pintura que, mais do que emprestar seu título, oferece o horizonte político desta exposição — para ensaiar aproximações, tensionamentos, provocações e presságios em torno do colapso da arte tal como hoje a conhecemos. Trata-se de imaginar e construir práticas artísticas que não obedeçam, tampouco se intimidem, diante das prescrições históricas, sociais e ontológicas legadas pela formação burguesa da ideia de arte. Se há traços de cinismo em fazê-lo no seio de uma galeria comercial, ao mesmo tempo é precisamente por estarmos aqui que desejamos fazê-lo, desnaturalizando as relações de distância, contemplação e propriedade através das quais — entre a amedrontada transparência da janela e o olhar fetichista da vitrine — o colecionismo tipicamente burguês vem objetificando e mercantilizando as expressões artísticas, seus sujeitos e mundos.
Ainda bem que um dia acabaremos com tudo isso. Nem que seja com o fim do mundo em si mesmo.
Clarissa Diniz
Curadora
Serviço
Ainda bem
26.05.2026 — 11.07.2026
Curadoria Clarissa Diniz
Danielian Galeria São Paulo
Rua Estados Unidos, 2114 - Jardim América
São Paulo
SP