Trabalhos até R$8.000,00

por Isabela Galvao - London Art Walk

Tempos de crise! Comprar arte pode ter virado algo mais distante. Realmente, aquela parcela da população que hoje se preocupa com ter ou não o suficiente para pagar a escola dos filhos, o aluguel ou mesmo para comprar comida, para esses brasileiros ficou longe o prazer de adquirir trabalhos artísticos. Me dirijo a estes com meu mais sincero desejo que sejam exitosos em superar todos esses desafios e que saiamos dessa pandemia de alguma forma mais fortalecidos. Já para aqueles cujo orçamento não tem sido tão afetado apesar da pandemia, dedico esse texto a mostrar trabalhos incríveis e acessíveis que encontrei aqui na ArtSoul.

 

Pautei minha seleção num critério de preço: trabalhos de até oito mil reais. Achei fantástica a variedade de filtros do site e as ferramentas que ele nos oferece. Dentre os quase 2 mil trabalhos que me apareceram na tela, escolhi aqueles que mais me impactaram visualmente. Não só! Levei ainda em conta a trajetória do artista e o que está por trás do seu processo criativo. A coerência e profundidade com as quais o artista persegue seu "chamado", ou seja, temas que o intrigam, desafiam ou simplesmente esperam um canal de expressão. Assuntos presentes nas suas histórias de vida e que o leva à criação de um determinado objeto que acaba refletindo suas ideias ou instintos.

 

Vamos então a uma breve pincelada em cada artista que selecionei aqui: Egídio Rocci enquadra minha atenção dentro do universo contido em suas caixinhas repletas de pequenos detalhes e significados. Flora Assumpção serpenteia com a nossa mente numa mistura inusitada entre o anfíbio que se arrasta e a tecnologia dos fios, cabos e cordas entrelaçados. Nazareno nos convida a sentar e esperar, abordando o tema da proteção e nos remetendo a uma memória escolar distante no tempo mas presente dentro de todos. Fernanda Valadares dita coordenadas precisas dentro de uma paleta calma e monocromática. Nario Barbosa, que linda sua composição entre fotografia e o tear! Inovadora sua forma artesanal de intervir na representação fotográfica. Laerte Ramos meticulosamente monta e ordena suas peças numa lógica para nós desconhecida mas intrigante. Léo Sombra, obrigada por nos remeter à genialidade de Gerhard Richter. O desfoque do vaso de flores cujas pétalas estão a cair acelera a velocidade entre a primavera que passou e o outono que ainda está por vir.

 

Um prazer também ver as paisagens através da lente de Dudu Tresca. Posso passar horas observando as nuances de cada detalhe retratado e aproveitando a deliciosa lembrança de Yayoi Kuzama com seu Narcissus Garden e sua infinidade de bolas. Itelvino Jahn traz nova forma, energia e alma a madeiras que estavam quase se despedindo da vida. Suas esculturas orgânicas enchem de movimento as curvas que foram achadas em antigas propriedades rurais. Vanderlei Lopes nos rouba um sorriso ao retirar a funcionalidade de peças que pouco reparamos no dia a dia, como uma tomada, um ralo, um interruptor. Retirados do seu contexto comum, eles nos chamam e dizem "repare em mim". Como então não "elevá-los" ao nível de objetos de contemplação? Que assim o seja quando arte e humor se casam. Renata Egreja e Patricia Carparelli nos levam para o colorido do universo feminino com movimentos gestuais, a primeira (Renata) trazendo para a figuração uma sensualidade pictórica e a segunda (Patrícia) liberando uma fluidez delicada. Para finalizar, ninguém menos do nosso expressivo e gestual Manabu Mabe carregando honrosamente o peso da miscigenação brasileira e do acolhimento às milhões de famílias de imigrantes que aqui vem encontrando seu porto seguro há mais de um século.

 

Espero que curtam a seleção DEMOCRÁTICA que fiz! Levei em consideração o momento dramático pelo qual infelizmente o planeta passa hoje, mas, por outro lado, buscando resgatar a importância do setor criativo e de nós, amantes da arte e da cultura, seguirmos alimentando uma cadeia de produção que também põe comida no prato de muitas famílias.

 

No projeto que criei desde que fui morar em Londres, tenho como conceito principal levar arte para as pessoas, facilitando o diálogo entre o objeto e seu espectador. Procuro fazer isso de forma simples e desestigmatizando a máxima de que é preciso uma bagagem erudita para se poder apreciar arte. Nada disso e as vezes muito pelo contrário! Quanto mais genuíno é o olhar de uma criança, por exemplo, maior pode ser o diálogo entre ela e uma obra. Na minha jornada com a arte, a proposta é expor nosso olhar e abrir o campo de possibilidades. Seja no Instagram, seja fisicamente dentro dos museus, seja em LONDON ou no Brasil, vamos caminhar pela ARTe .... and I hope you enjoy the WALK!

 

Isabela Galvao fundou o London Art Walk em 2015 com o objetivo de levar grupos a exposições de arte. Sua página do Instagram se dedica a divulgar o que está em cartaz num foco amplo que contempla desde impressionistas, surrealistas, old masters, arte moderna, contemporânea e por aí vai. A arte que é produzida hoje em dia é muitas vezes capturada dentro do atelier do artista e canais de diálogo são abertos entre ele e grupos que o London Art Walk segue trazendo para este universo.