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Conversamos com Paulo Vicelli, Diretor de Relações Institucionais da Pinacoteca do Estado de São Paulo

Conversamos com Paulo Vicelli, Diretor de Relações Institucionais da Pinacoteca do Estado de São Paulo

Ações e iniciativas de um dos mais antigos e vibrantes museus da cidade e os seus diferentes papéis

Paulo Vicelli, Diretor de Relações Institucionais da Pinacoteca_foto Christina Rufatto
 
 
Não foi conviver na infância com grandes coleções de arte ou com o colecionismo que levaram Paulo Vicelli, Diretor de Relações Institucionais da Pinacoteca do Estado de São Paulo, à uma carreira focada na arte e na cultura. As visitas ao museu pedagógico de sua cidade natal Rio Claro, no interior de São Paulo, o inspiraram desde cedo; e ao cursar Relações Internacionais, na PUC-SP, enxergou o potencial do soft power das artes. Desde 2012, ele direciona a comunicação e os eventos públicos do museu para que reflitam a sociedade contemporânea em que se insere e acolham os diferentes públicos que fazem do museu um dos mais vibrantes da cidade.
 
 
ARTSOUL - Qual a sua relação com a programação do museu? 
 
PAULO VICELLI - Eu tenho uma interface maior com a programação pública, 
para além das exposições. Cuido de ações pontuais e entro também quando criamos programas para além das arte visuais. Esse é o segundo ano, por exemplo, do Música na Pina, uma parceria com a OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo). Há diferentes oportunidades de oxigenar o museu e trazer outros públicos que têm interesse não só por artes visuais. O Dança na Pina é outro momento desses, no ano passado foi com Marta Soares; é um mês de intervenções com coreografias dentro do museu.
 
 
AS - Vocês conversam com essas pessoas "novas" que vêm ao museu nessas ocasiões?
 
PV - A gente sempre tenta fazer alguma coisa que seja muito especial. O visitors’ experience é um grande dilema na museologia internacional. As experiências aqui no museu precisam ser especiais, diferentes e fascinantes, para as pessoas voltarem e criarem um vínculo com a Pina. Se você já adora a OSESP e frequenta a Sala São Paulo, o que te faz vir à Pina para ouvi-la de novo? Porque são 100 lugares, no meio da galeria, o museu está fechado, tem uma acústica incrível, um clima super misterioso porque tudo está meio na penumbra. Você chega e o museu já está mais vazio, come alguma coisa no terraço, vai assistir o concerto e ele é relativamente curto, dura uma hora, porque tem muita gente que vem de metrô. Às 20h15, 20h30, já acabou e você ainda pode sair para jantar depois. É a mesma coisa com a dança. Não queria fazer um espetáculo de dança no teatro, não faz o menor sentido. O legal é fazer no meio do Octógono, ou você está andando pelo museu e de repente acontece alguma coisa. Não estou reinventando a roda, o (artista) Tino Segall faz isso o tempo todo e é uma inspiração para nós. Nesses momentos há um grande mix de pessoas, cria-se um ambiente muito diverso e democrático.
 
 
 
 
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Pinacoteca_foto Divulgação
 
 
 
AS - Acredito muito nos diálogos que são possíveis quando diferentes disciplinas se encontram. É lindo ver isso acontecer na Pina.
 
PV - Acho que não dá mais para não pensar assim. As fronteiras estão muito fluidas. Você não tem mais arte sem moda, sem música, sem performance. A (artista) Laura Lima vai fazer uma performance com a gente que é muito assim. Ela usa alfaiates para construírem roupas que vão vestir quadros, mas isso é uma performance, que está dentro do museu. Quer dizer, como você separa isso? Isso será durante a (exposição) ‘Mulheres Radicais’ (18 de agosto a 19 de novembro, 2018).
 
 
AS - Fale um pouco sobre as vozes que comunicam a alma da Pina ao público e dessa articulação com a experiência no museu, como o encontro com o trabalho muito bem desenvolvido pelo Educativo, que foi feito, por exemplo, para a exposição da Hilma af Klint.
 
PV - Esse é um grande exercício. Dentro dos museus existem diferentes escolas e o mais difícil é fazê-las conversarem. Isso é muito mérito do Tadeu e do Jochen (Tadeu Chiarelli anterior e Jochen Volz atual Diretor Geral do museu) que nos últimos anos têm se dedicado muito a misturar os universos. Então a curadoria entra no educativo e o educativo entra na curadoria, não são mais feudos independentes. Os textos escritos pela curadoria ficam lado a lado com textos escritos pelo educativo, com outras abordagens, isso dá ao visitante um empoderamento maior do que simplesmente comunicar que é possível agendar uma visita guiada. Assim, o público tem uma autonomia para ler, refletir, especialmente em exposições como a da Hilma (‘Hilma af Klint: Mundos possíveis’, até 16 de julho, 2018). Na parede também temos alças que são especificamente para as crianças, um caça ao tesouro para começarem a ver detalhes, tudo é muito bem pensado e articulado, as mensagens que se quer dar estão ali. No acervo, já existia uma proposta, que ainda está em vigor, que também é muito interessante: quando você passeia pelo acervo, há umas paredes de outra cor com obras de períodos diferentes do que aqueles que estão sendo mostrados naquela sala. Você está no século 19 e de repente tem uma obra do (fotógrafo) Luiz Braga, e tem um texto que te orienta com perguntas a pensar as relações da arte contemporânea ou da moderna com essas obras mais históricas.
 
 
AS - Qual é o papel dos museus na sociedade?
 
PV - O museu é como a igreja, a prefeitura, o fórum, faz parte das instituições fundadoras. O museu faz parte da formação das pessoas como cidadãos, pessoas que se empoderam daquela cidade, reconhecem os papéis das instituições e se apropriam delas, para o seu próprio bem e consumo. O museu tem esse papel, o de ser esse espaço de cidadania e de reconhecimento. Na Pina isso é muito evidente, é um dos museus mais antigos do país. O museu é formado, em sua grande medida, por arte contemporânea. Em 1905 estávamos adquirindo obras de artistas de 1905, de alguma forma é um museu de arte contemporânea, ele reflete esses tempos através dos quais existe. Então você se vê enquanto cidadão, as suas origens, a sua história, por mais que acredite ou não naquela ideologia. É muito legal pensar nesse papel civilizatório do museu, não só como um receptáculo de memórias, mas como um espaço de propostas, de reflexão, de olhar para frente, de promover o debate. Agora, (a exposição) ‘Mulheres Radicais’ terá um recorte temporal e histórico que é muito presente, vai de 1960-85, que pra gente já está lá para trás, mas, como conectamos isso aos anseios da sociedade de hoje, é interessante. Todos estão falando hoje de empoderamento feminino, de igualdade de gênero, do papel pioneiro de mulheres em diversas áreas. É muito bonito ver um museu do século 19 pensando os diálogos com os dias de hoje. Esse é o nosso papel. 
 
 
 
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Album de gravuras editado pela Pinacoteca_foto Divulgação
 
 
 
AS - Conte um pouco sobre a iniciativa dos álbuns que a Pina edita.
 
PV - O grande case de sucesso disso é o MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo), com o clube de gravura e de fotografia, e é no qual eu me inspirei quando resolvemos trazer esta ideia para a Pina. São dois caminhos que me movem a trabalhar com o incentivo ao colecionismo: primeiro, é como eu trago para dentro do museu uma participação mais efetiva da sociedade civil. Se estamos falando de cidadania, de movimento civilizatório, de apropriação desses espaços e instituições, isso passa de alguma forma, sobretudo nos dias de hoje, pelo funding disso tudo. De que forma a Pinacoteca se manteve todos esses anos? Graças a pessoas que doaram seu tempo, dinheiro, coleções, obras, conhecimento e know how para que ela se mantivesse em pé. Isso precisa ser incentivado ainda nos dias de hoje. As pessoas que frequentam, visitam exposições, compram um catálogo, comem no café, esse tipo de ação, pra mim, já é muito válida. Então como ampliar esse público e trazê-lo para dentro do museu é um primeiro desafio. O segundo era a questão de formar novas gerações. Eu devo muito às pessoas que apoiam o museu, e os filhos delas––o que fazer para eles também se sentirem parte destas estruturas? Criamos em 2012 um programa que chama Programa de Patronos. O Programa de Amigos, que já existia antes, tem 4 categorias e as doações vão de R$200 até R$3 mil por ano. Você escolhe o que mais lhe interessa, vê as contrapartidas e faz sua doação. No Programa de Patronos são valores maiores e o recurso vai para um fundo para a compra de arte contemporânea para a coleção do museu. Diferente do Programa de Amigos, em que a sua contribuição vai para o museu como um todo, desde uma van para idosos até um reparo no telhado, o dinheiro dos patronos vai especificamente para aquisição de obras. A curadoria faz uma lista prévia de 20 obras que interessam e as defendem aos patronos. A partir disso e do dinheiro disponível, dizem o que querem que seja adquirido. É muito legal porque há uma participação ativa nessa decisão. Vimos que muitos jovens colecionadores entravam para esse programa porque queriam estar nesse ambiente, e que existia entre os patronos interesses diferentes, então criamos um espaço de boas trocas. Há também as visitas guiadas que organizamos (o Programa de Amigos também proporciona isso) e os Talks com curadores, uma proximidade maior com as equipes do museu. Cria-se um relacionamento entre as pessoas e a instituição. Porque só assim mantemos as pessoas motivadas e verdadeiramente conscientes de que aquela doação mudou e contribuiu para a coleção da Pinacoteca, é um legado. Foi assim com aquele Tunga (a obra Tríade Trindade, 2001), que está no Octógono, não tem nenhum museu no país que tem um Tunga tão poderoso e potente quanto aquele, e se não fossem os patronos e a sua visão e consciência, não estaríamos expondo esta obra incrível. O Programa de Patronos tem essa função, de oxigenar o acervo, mas também o de dar em troca a essas pessoas, que nos apoiam, a oportunidade de conviver com o dia a dia do museu. Se vão colecionar de fato, ou não, é outro momento.
 
A ideia de trazer os múltiplos não foi tanto da ideia de incentivar colecionismo, isso está implícito. Nossa vontade era oferecer algo exclusivo, que só a Pina poderia oferecer, como ter uma (obra da artista) Beatriz Milhazes dentro de um álbum de gravuras, por um preço que não é barato, mas também não é tão proibitivo, e que também pudesse se reverter em recursos para o museu. O primeiro álbum lançado entrou num mote dos "110 anos do museu". Chamamos 11 artistas brasileiras e foi estelar ao extremo. Entre elas, estavam Anna Maria Maiolino, Maria Bonomi, Jac Leirner, Carmela Gross, Beatriz Milhazes, Ana Maria Tavares; pegamos quase todas as gerações. Vendemos tudo (50 álbuns) e gerou quase R$1 mi para o museu. Com os recursos compramos um (trabalho do artista) Oscar Pereira da Costa que está agora no museu e a legenda da obra diz que foi comprado com os recursos da venda do álbum de gravura, então todos que compraram fazem parte disso. O segundo foi um álbum de fotos, com sete artistas e este ano fizemos uma edição especial com a Valeska Soares. A Valeska terá a sua grande retrospectiva aqui no museu em agosto, então os múltiplos que ainda temos serão vendidos aqui nesse momento. Fiz uma edição de 100, 20 de cada uma das 5 imagens. É possível comparar a série inteira ou só um trabalho; são retratos só de mulheres da coleção do museu com intervenção da Valeska, uma série de múltiplos em diálogo com a série original Doubleface (2017/2018).
 
 
AS - E outras vozes ou pontos de encontro do público com o museu?
 
PV - Fazemos cursos associados aos temas das exposições. É uma forma de fazer com que o museu também seja encarado como um espaço de aprendizado mais formal.
 
 
AS - Conviver com arte é isso, sempre se aprofundar. Não se digere tudo num primeiro momento.
 
PV - Fazer as pessoas entenderem isso é um desafio. Muita gente pensa “não entendo”, “o que o artista quer dizer com isso”. É difícil você reprogramar a cabeça das pessoas para que elas entendam que nem tudo tem um significado específico, ou um único significado; o seu background, as suas experiências vão te dar uma resposta, ou não, e, tudo bem. Há uma ansiedade de ver sentido em tudo, descobrir o porquê. Ao conviver com arte você descobre como a experiência de cada um é importante; coisas que você leu ou viveu, viagens que você fez, isso tudo vem à tona quando você olha uma obra, ou está à sua disposição para você acessar. Muita gente acha que arte contemporânea é elitista, ela não é elitista, ela é muito democrática, ela dá as respostas para aquelas perguntas que você faz, a partir do seu conhecimento. Quanto mais informação, mais e outros tipos de perguntas surgirão.
 
 
 
 
VISITE
Pinacoteca do Estado de São Paulo
Pina_Luz
Praça da Luz, 02, São Paulo-SP
Pina_Estação
Largo General Osório, 66, São Paulo-SP
R$6 e R$3 (meia entrada) / aos sábados gratuito 
Menores de 10 anos e maiores de 60 anos gratuito
pinacoteca.org.br