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ArtSoul conversa com o colecionador Fernando Assad Abdalla

ArtSoul conversa com o colecionador Fernando Assad Abdalla
Vista geral da coleção de Fernando Assad Abdalla. Crédito foto: arquivo pessoal do colecionador/Divulgação.

 

Fernando Assad Abdalla comanda a empresa de artigos para cozinha e casa Doural, que foi fundada e continua na família desde o início do século 20. Seu encontro com a arte nasceu do interesse que ele tinha, quando adolescente, em celluloids de desenho animado e hoje ele tem uma coleção de centenas de obras de arte contemporânea, principalmente de artistas brasileiros.

 
ArtSoul   Como, quando e por quê você começou a colecionar arte?


Fernando Assad Abdalla  Desde os meus 18 anos, eu colecionava aqueles celluloids que fazem parte de como se fazia desenho animado. Dentro desse universo, existe o cara que faz o story board, o desenhista, o cara do celluloid… eu comecei a estudar sobre e com isso a pegar gosto por arte. Aí, depois de casar, eu e minha esposa, tínhamos uma casa nova e esse interesse por arte começou a crescer, começamos a visitar feiras de arte. É gostoso você entrar em casa e ver uma obra que gosta ou com a qual você tem algum tipo de relação emocional, seja porque compramos em uma viagem, ou numa feira de arte juntos…


 
ArtSoul   Vocês começaram de forma independente, ou acompanhados de algum consultor?


Fernando Assad Abdalla  Começamos nós dois, eu olhando e de vez em quando pedindo a opinião dela… mas, com o tempo o meu gosto começou a destoar do dela –– algumas coisas batem, outras são diferentes. Eu gosto de obras mais difíceis e ela de obras mais esteticamente bonitas. Aí, algumas coisas eu comecei a comprar escondido dela!


 
ArtSoul   Como você descreveria a sua coleção?


Fernando Assad Abdalla  Hoje eu gosto de obras que me tirem do conforto e do lugar comum –– que me façam refletir. Tenho bastante obra política…tenho muita Nazareth Pacheco, obras que falam da doença dela, como ela sentiu isso e passou para o trabalho dela; tenho algumas coisas da Beth Moysés, que falam sobre a violência contra as mulheres… Tenho um núcleo de obras de artistas negros que discutem a situação atual do negro e de onde se originou toda esta questão –– tenho bastante Rosana Paulino nesse grupo.


 

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Vista geral da coleção de Fernando Assad Abdalla. Destaque para a Kombi de Camille Kachani. Crédito foto: arquivo pessoal do colecionador/Divulgação.

 

ArtSoul   Você também coleciona artistas como Jaime Lauriano e Dalton Paula?


Fernando Assad Abdalla  Sim e também Rosana Paulino, No Martins, Ayrson Heráclito, entre outros. Eu costumo, de forma inconsciente talvez, a criar micro-núcleos dentro da coleção e essa dos artistas negros é uma, outros são artistas mulheres, artistas políticos…


 
ArtSoul   Quem entra nesse núcleo que você chama de ‘artistas políticos’?


Fernando Assad Abdalla   Entra Almandrade, Paulo Bruscky, Claudio Tozzi, Montez Magno, Claudia Andujar, Amelia Toledo –– eu tenho uma grande coleção de trabalhos dela ––, Anna Bella Geiger. Cada um em seu momento e com assuntos diversos.


 
ArtSoul   Você tenta pincelar na coleção obras de momentos diferentes das carreiras desses artistas mais estabelecidos?


Fernando Assad Abdalla   Sim. Por exemplo da Amelia Toledo tenho obras desde uma época em que ela fez arte política nos anos 70, até outros momentos quando ela discute a natureza, a reflexão, a cor e a energia… No geral, eu não costumo ter só uma obra de uma artista. Você pega uma Amelia, por exemplo, eu devo ter umas 200 obras só dela. Do Paulo Bruscky, algo parecido. Uma obra se liga à outra e assim você começa a entender um pouco a visão que o artista tem.


 
ArtSoul   Sim, assim as obras da coleção se contextualizam dentro de um panorama da produção do artista… E, você expõem obras da sua coleção?


Fernando Assad Abdalla   Eu tenho uma parte guardada, muita coisa fica em casa –– as paredes são tomadas –– e muita coisa está sempre emprestada, para museus, exposições… Há muitas obras que eu compro só com o intuito de poder emprestar para alguma instituição.

 

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 Detalhe da coleção de Fernando Assad Abdalla. Destaque para o desenho de Anna Bella Geiger, da série Sobre a arte, iniciada na década de 70, Diga Conosco Bu-ro-cra-ciaCrédito foto: arquivo pessoal do colecionador/Divulgação.

 

 

ArtSoul   Que generosidade!

Fernando Assad Abdalla  Tem um pouco de ego também, não é só generosidade! Mas, o fato de poder dividir me agrada. Acho que não tem muita graça você ter obras que só ficam na sua coleção e que acabam sendo só para os seus olhos e dos seus amigos. É bacana você poder multiplicar isso de alguma forma.
 

ArtSoul    E como é conviver com essas obras que estão na sua casa e que você vê no dia-a-dia? Você tem períodos em que gosta de trocar a disposição delas? Como se dá essa convivência?

Fernando Assad Abdalla   No geral, há algumas obras mais fixas, que são as mais pesadas, fisicamente, mas tem muitas obras que eu troco. Normalmente, eu acabo trocando elas quando eu empresto, porque começam a vagar uns espaços e preciso colocar outra coisa…aí quando troco uma, ela não combina com a outra e eu acabo tendo que trocar mais algumas de lugar para que tudo fique mais harmônico.
 

ArtSoul   Quando você fala em ‘combinar’ você quer dizer esteticamente, conceitualmente? O que é esse ‘combinar’ para você?

Fernando Assad Abdalla   As duas coisas juntas. Às vezes você tem uma obra política, que tem uma estética bonita, que combina com uma outra obra que é não é política, mas esteticamente elas combinam. Por exemplo, tem uma obra da Amelia (Toledo), que chama Divino Maravilhoso-Para Caetano Veloso (década de 70), que é uma obra política, que fala da música e que precisamos ‘ficar alertas’; é um livro-objeto em formato de cruz, com a foto do Caetano, e ela fica ao lado de uma Kombi do Camille Kachani, que foi uma escolha da minha mulher, e elas combinam porque se você não olhar com esse olhar de curiosidade, de entender porque que aquela obra é aquela obra e daquela forma, você poderia achar que as duas são só esteticamente bonitas e ficam bem juntas…
 

ArtSoul    Você frequenta as feiras de arte, convive com os artistas? Como é a sua relação com o meio e com a compra de obras?

Fernando Assad Abdalla   Eu vou às feiras, muitas vezes para conhecer algum artista novo; vou às exposições. Quando eu compro a obra de um artista, eu gosto de conhece-lo e com isso às vezes acaba se formando uma amizade, que cria um convívio e nesse convívio às vezes você aprende muito, porque a visão de um artista sobre outro artista é diferente da visão que você recebe de uma galeria sobre um artista…

 

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Detalhe da coleção de Fernando Assad Abdalla. Destaque para impressão sobre post-its de Iris Helena. Crédito foto: arquivo pessoal do colecionador/Divulgação.

 

 

 

ArtSoul   Existe algum núcleo novo que você gostaria de começar em sua coleção, ou algum artista do qual você ainda não tenha obra, ou que você conheceu recentemente, que você pensa em comprar no futuro próximo?

Fernando Assad Abdalla   Tenho inúmeros núcleos a preencher. Acho que colecionar é um caminho sem volta. Daria para eu fazer mais umas dez coleções, do tamanho da minha, só das minhas vontades!
 

ArtSoul   E qual é a vontade atual mais pulsante?

Fernando Assad Abdalla   Talvez o de fazer um recorte melhor de fotografia. Eu tenho bastante fotografia, mas acho que ainda falta muita coisa. A minha coleção é 90% brasileira e hoje eu tenho bastante interesse em fotógrafos que fizeram testes em fotografia na década de 70 e 80, onde eles utilizam métodos diferentes de fotografar. Por exemplo, tenho fotos da Claudia Andujar, daquela série Sonhos, na qual ela fotografa os índios, como se eles estivessem tomando aquele chá e naquele transe. Tenho também fotos interessantes da Neide Sá, da Rosangela Rennó, do Alair (Gomes)…mas, o que eu procuro mais são técnicas diferentes em fotografia e focar artistas que fizeram esses testes nessa época, usando até técnicas amadoras para poder mostrar um resultado diferente.
 

ArtSoul   O que você daria de conselho ou insight a colecionadores que estão começando?

Fernando Assad Abdalla   Primeiro, aquilo que todos dizem: compre o que gosta, não compre o que você acha que vai valorizar, porque normalmente vai demorar––se você tiver sorte, pelo menos uns 20, 30 anos para valorizar. E, segundo, é que eu acho que o trabalho de um colecionador é meio um trabalho de futurologia: é você imaginar o que será importante daqui a 30 anos, aí você voltar ao tempo atual e começar a comprar, porque senão, quando chegar daqui a esses 30 anos e você quiser comprar o trabalho do artista, ele já vai estar impossível de comprar. O legal é você comprar um trabalho e se interessar por um movimento que você acha que vai ser importante e comprar no começo.
 

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Fernando Assad Abdalla. Crédito foto: arquivo pessoal do colecionador/Divulgação.

 

 Recomendamos o instagram dele @fernandoaabdalla