

Exposição "Ismael Nery: crônica e sonho"
Exposição
- Nome: Exposição "Ismael Nery: crônica e sonho"
- Abertura: 29 de agosto 2025
- Visitação: até 18 de outubro 2025
Local
- Local: Danielian São Paulo
- Evento Online: Não
- Endereço: Rua Estados Unidos, 2.114 – São Paulo
Ismael Nery: crônica e sonho
A curadoria de Tadeu Chiarelli revela um Ismael Nery atual, cujas reflexões sobre o eu e a ambiguidade ecoam no presente.
Ismael Nery (1900–1934) atravessou o modernismo brasileiro de modo tão intenso quanto breve. Poeta, pintor, desenhista obstinado e criador de uma filosofia própria — o essencialismo —, sua obra se organiza em torno de uma pergunta central, repetida em diferentes registros: quem sou eu?
Essa interrogação aparece de forma insistente nos inúmeros autorretratos que Nery produziu ao longo da vida, nos quais a identidade é posta em jogo como fragmento, deslocamento e recomposição. A busca não é apenas pela imagem do indivíduo, mas pela sua dissolução em pares de opostos: corpo e espírito, sombra e luz, masculino e feminino. Não por acaso, os retratos que fez ao lado de Adalgisa Nery, companheira e musa, sugerem um processo de fusão — como se o casal fosse uma só entidade, ambígua e indivisa.
A mostra “Ismael Nery: crônica e sonho”, com curadoria de Tadeu Chiarelli, reúne cerca de 60 obras, entre seis óleos e 56 trabalhos sobre papel — aquarelas, guaches, nanquins e grafites — que percorrem a produção do artista. Entre o cotidiano da metrópole carioca e o mergulho no supra-real, Nery constrói uma poética da ambiguidade: o duplo, a androginia, a autoimagem, a figura humana deslocada para territórios metafísicos. Nos anos 1920 e 1930, em diálogo com a visualidade art déco e as pesquisas cubistas, já apontava para questões identitárias e existenciais que hoje soam contemporâneas. Em seus últimos anos, marcados pela tuberculose, o corpo se torna tema e território: pulmões, traqueias e vasos sanguíneos transformam-se em paisagens interiores, ao mesmo tempo íntimas e universais.
Sua produção, no entanto, não se restringiu às visualidades. Nery escrevia poemas e promovia encontros em sua casa, dissertando sobre filosofia, estética e religião para amigos como Jorge Burlamaqui, Mário Pedrosa, Antonio Bento, Alberto da Veiga Guignard, Jorge de Lima e Murilo Mendes — este último, decisivo na preservação de sua obra após a morte precoce do artista.
“Eu sou a tangência de duas formas opostas e justapostas, eu sou o que não existe entre o que existe, eu sou tudo sem ser coisa alguma, eu sou o marido e a mulher, eu sou a unidade infinita, eu sou um deus com princípio, eu sou poeta.” — Ismael Nery, trecho do poema Eu (1933). In: BENTO, Antônio. Ismael Nery. São Paulo: Gráfica Brunner, 1973.
A obra de Ismael Nery voltou a ganhar destaque em 1969, na X Bienal de São Paulo, na “Sala de Artes Mágica, Fantástica e Surrealista”, um panorama da produção brasileira nesse campo em diálogo com criações internacionais. Nesse contexto, Nery recebeu uma sala retrospectiva dedicada exclusivamente a ele, reunindo 50 trabalhos em papel. Entre os trabalhos exibidos em 1969, presentes também nesta exposição, estão o nanquim Princípio da Divisão (1931), a aquarela Além do feto (1927) e o nanquim Figura n.º 9 (1929).
A partir desse momento, a presença do trabalho de Nery passou a ressoar como influência e antecipação, ecoando posteriormente em artistas como Leonilson e em poéticas que investigam corpo, identidade e transcendência.
O recorte curatorial proposto por Chiarelli articula obras em que Nery observa a vida urbana de seu tempo com outras em que se entrega ao devaneio, ao sonho e à poesia. Nesse cruzamento, sua obra se revela não só como testemunho fundamental das experiências modernas do início do século XX, mas também como palco de reflexão sobre pulsões e identidades que seguem em debate na contemporaneidade. Durante a exposição, será lançado o catálogo com as obras expostas e textos críticos.
Tadeu Chiarelli é crítico, curador e professor, referência nos estudos sobre a arte moderna e contemporânea no Brasil. Foi diretor da Pinacoteca do Estado de São Paulo (2005–2009) e do Museu de Arte de São Paulo – MASP (2015–2017). Atuou também como chefe do Departamento de Artes Plásticas da ECA-USP, onde é professor titular. Publicou livros e ensaios fundamentais sobre artistas como Ismael Nery, Geraldo de Barros e Nelson Leirner. Sua trajetória articula pesquisa acadêmica, curadoria e reflexão crítica sobre a arte brasileira.
A Danielian Galeria nasce da experiência formativa de Luiz e Ludwig Danielian, moldada pelo convívio com a coleção de seus pais, dedicada à arte brasileira. Da primeira galeria em Copacabana, aberta quando ainda muito jovens, ao espaço de grandes dimensões inaugurado na Gávea em 2019, construiu-se uma trajetória de continuidade e expansão. Em 2024, a abertura da sede paulistana, na Rua Estados Unidos, consolida esse movimento. Entre a memória do acervo familiar e a inserção no circuito internacional, a galeria atua há vinte anos como mediadora entre gerações, preservando vínculos históricos e projetando novas presenças no campo da arte.
Serviço
Ismael Nery: crônica e sonho
Curadoria: Tadeu Chiarelli
Abertura: 28 de agosto de 2025, das 18h às 21h
Visitação: de 29 de agosto a 18 de outubro de 2025
Danielian São Paulo
Rua Estados Unidos, 2.114, São Paulo-SP
danielian.com.br